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28 de abr. de 2023
FERROVIA NA AMAZÔNIA: SEMPRE ACHEI COMO IMPORTANTE AÇÃO PARA CONTROLE MAIS EFETIVO CONTRA O DESMATAMENTO
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https://www.cnnbrasil.com.br/forum-opiniao/ferrovia-x-asfalto-na-amazonia/
Um dos maiores desafios para a redução do desmatamento na Amazônia é uma obra de infraestrutura. Trata-se da ligação entre Manaus e Porto Velho. Dependendo da decisão a ser tomada, podemos ter uma aceleração do desmatamento ou uma guinada rumo a uma economia verde e sustentável.
Iniciada em 1968 e concluída em 1973, a BR-319, que liga Manaus a Porto Velho, foi inaugurada oficialmente em 1976. Na década de 1980, essa rodovia ficou em péssimas condições e, desde então, é basicamente não trafegável, exceto nos poucos meses de seca, quando se torna uma aventura para poucos. Fiz essa jornada pela última vez em dezembro de 2021 e pude viver e ver de perto a situação.
A maioria das lideranças políticas e empresários da região, da esquerda e da direita, defendem o asfaltamento. A quase totalidade dos cientistas e ambientalistas são contra o asfaltamento. Historicamente, os governos estaduais e federal lutam pelo licenciamento ambiental da obra de reconstrução da estrada e o Ibama e Ministério Público Federal resistem. É um impasse que dura décadas. Precisamos de uma solução capaz de unir as diferentes visões.
Os cientistas e ambientalistas sustentam que o asfaltamento da estrada implicará na explosão do desmatamento. Em nossa última viagem, vimos de perto o dinâmico comércio ilegal de terras e a ausência de postos de fiscalização ambiental. Desde 2005, sou defensor da proposta de ferrovia. Em 2006, ainda como secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do estado do Amazonas, contratamos a Fundação Getúlio Vargas para elaborar um estudo sobre a viabilidade da ferrovia como alternativa ao asfaltamento da rodovia. Entregamos esse estudo ao Governo Federal e a proposta chegou a ser encampada pelo Governo do Amazonas.
A conclusão do estudo apontou para a viabilidade da obra do ponto de vista de engenharia e do ponto de vista financeiro. O valor das emissões de carbono que seriam evitadas equivaleriam a quatro vezes o custo da obra. Hoje, o valor do carbono triplicou e surgiu um fato novo: a possibilidade de usar a ferrovia para escoar a gigantesca jazida de potássio do Amazonas, hoje importado e com fornecimento afetado pela guerra na Ucrânia.
Existe um momento favorável para mobilizar recursos vinculados à agenda climática para um financiamento híbrido, que combine recursos não reembolsáveis, recursos de empréstimo e recursos dos tesouros federal e estaduais. Esse financiamento deve ir além da obra de infraestrutura. Os recursos precisam incluir também o financiamento de um grande programa de desenvolvimento territorial sustentável, valorizando a floresta em pé e criando oportunidades de geração de renda, eliminação da pobreza extrema e conservação ambiental, desde a calha do rio Madeira até a calha do rio Purus.
Os setores empresariais da construção civil, turismo e do Polo Industrial de Manaus seriam muito favorecidos com a ferrovia em função do seu baixo custo de transporte e menor vulnerabilidade aos fenômenos climáticos de cheias e secas. A redução dos custos de logística beneficiaria também a economia do estado de Roraima e a ligação do restante do Brasil com os países do norte da América do Sul. Além disso, a ferrovia seria um modal adicional para a exportação da produção agropecuária do Acre, Rondônia e Mato Grosso pelo rio Amazonas e permitiria a conexão terrestre de Roraima e Amazonas com o restante do país.
Com a ferrovia poderíamos sair do imobilismo das últimas décadas para uma solução moderna e compatível com um novo posicionamento do Brasil no cenário global. Necessitamos de sinais claros de que temos projetos para que o Brasil saia da posição de vilão do combate às mudanças climáticas para o papel de protagonista de um novo estilo de desenvolvimento, baseado na valorização da floresta em pé combinando desenvolvimento econômico com redução das desigualdades sociais. Essa agenda poderia unir diferentes segmentos da sociedade, independentemente de partidos políticos.
Por tudo isso, creio que é urgente e necessário aprofundar os estudos e o debate sobre a ferrovia Manaus – Porto Velho. Essa ferrovia pode ser o caminho para mantermos acesa a chama da esperança de uma Amazônia próspera, inclusiva e resiliente às mudanças climáticas globais.
26 de abr. de 2023
GARIMPO DO OURO NA AMAZÔNIA. HÁ POSSIBILIDADE DE EXPLORAÇÃO SUSTENTÁVEL
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https://jornal.usp.br/radio-usp/jornal-da-usp-no-ar-2/jornal-da-usp-no-ar/os-caminhos-para-a-sustentabilidade-no-garimpo-de-ouro-na-amazonia/
A exploração do ouro, minério com grande demanda no Brasil, pode ser feita de maneira sustentável, por meio de transformações que começam desde a atividade garimpeira. É o que explica Carlos Henrique Xavier Araújo, doutor em Ciências do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Mineral do Departamento de Engenharia de Minas e de Petróleo e engenheiro de Minas pela Escola Politécnica da USP, a partir de sua tese de doutorado Análise dos desafios sociais e técnicos para transformações voltadas à sustentabilidade no garimpo de ouro na Amazônia Brasileira.
Por dentro da pesquisa
A principal motivação da pesquisa é buscar respostas e oportunidades de transformação, mudando a imagem que se tem da atividade garimpeira: “O garimpo de ouro não deve ser tratado apenas como um problema, porque envolve milhares de pessoas que dependem dessa atividade e é feita de forma legal diante dos órgãos competentes, com licenças ambientais”, explica Araújo.
A pesquisa de campo explorou dois lugares: o primeiro foi a região de Lourenço, em Calçoene, no Amapá, que é centenária na extração de ouro, tem uma cooperativa de garimpeiros, e que aborda a importância do cooperativismo nessa região, e a segunda rota foi de Sinop, no Mato Grosso, até Santarém, no Pará, onde se observou a relação da estrada e do garimpo de ouro.
Desenvolvimento local
Carlos Henrique Xavier Araújo – Foto: Reprodução/LinkedIn
Entender a situação dos pequenos garimpeiros visa a encontrar soluções para o futuro, não só para o presente. “Não é apenas ter o direito minerário para trabalhar legalmente, mas também enfatizar a melhora das condições de trabalho das pessoas e também uma capacitação contínua, porque o cooperativismo pode ser esse vetor de transformação”, diz Araújo.
Ele também enfatiza os custos e esforços que precisam ser feitos para que uma inovação aconteça: “A gente tem que pensar que, para fazer esse processo de transformação, tem um custo. Alguém tem que pagar a conta, então a gente tem que gerenciar essa implementação de mudanças, ter o apoio de análise de dados, entender mais sobre a caracterização desse minério. Qual é o teor? Qual é essa informação para conseguir repassar isso para os trabalhadores, para os donos dos garimpos, os representantes das cooperativas e a gente conseguir pensar num planejamento estratégico para implementar essa mudança?”.
Além das cooperativas, diferentes atores podem participar desse processo, como o governo e ONGs que seguem a legislação mineral. “O bem mineral é da União. Se o bem mineral é da União, o governo pode trabalhar com fiscalização contínua, o governo pode apoiar a capacitação de cooperativas, a capacitação de melhorar as condições de vida das pessoas que estão na atividade da pequena mineração.” E as ONGs, fazendo seu papel de fiscalização da biodiversidade na Amazônia, têm como papel o diálogo: Ouvir todas as áreas sobre como a gente pode melhorar a preservação ambiental da nossa Amazônia”, complementa.
25 de abr. de 2023
A MISTERIOSA, INSUBSTITUÍVEL E MAIS SIMPLES E IMPORTANTE SUBSTÂNCIA DO NOSSO PLANETA: A ÁGUA
https://youtu.be/OY3L1DPgxjA
Efeito Mpemba – uma esquisitice da água descoberta por uma criança
(Marcia Barbosa e Rogelma Ferreira)
Erasto Bartholomeo Mpemba, um menino da Tanzânia de 13 anos de idade fazia sorvete para ganhar uns trocados. O processo de produção do sorvete era bastante simples, consistindo em ferver o leite misturado com açúcar e com algum ingrediente ou fruta para dar um sabor. Após esperar o líquido inicialmente a 100 ºC atingir a temperatura ambiente, Erasmo o colocava na geladeira para o sorvete se formar a partir do congelamento da água.
Vários colegas do Erasto na escola de Magamba na Tanzania produziam sorvete para vender e compartilhavam o mesmo refrigerador, o que tornava a atividade competitiva. Certo dia, Erasto e um colega compraram leite de uma das vendedoras locais. Enquanto ele fervia a mistura, o seu colega, tentando adiantar a sua produção, colocou na geladeira o leite misturado ao açúcar a temperatura ambiente. Para não perder o último espaço que ainda restava no refrigerador e notando a competição injusta, Erasto colocou o leite ainda quente na geladeira. Uma hora e meia depois, os dois jovens voltaram para examinar os recipientes e, para grande surpresa deles, o pote colocado por Erasto congelara enquanto o pote do colega ainda permanecia líquido.
O comportamento contraintuitivo do sorvete despertou a curiosidade de Erasto. Afinal, para chegar ao congelamento em 0 oC o recipiente a 100 oC teria que passara por 35 oC. A mistura comportava-se como dois corredores, um saindo a 100 m e outro a 35 m da chegada, em que o corredor saindo da maior distância, 100 m, chegasse ao ponto final primeiro. Para entender o que ocorrera, ele perguntou para o seu professor de ciências uma explicação para água quente congelar mais rápido do que água fria. O professor respondeu que isto seria impossível e que o estudante estaria confuso.
Erasto não convencido com a fala do professor passou a procurar outras evidências. Durante as férias visita um amigo cozinheiro e acostumado a fazer grandes quantidades de sorvete em Tanga, cidade portuária muito quente da Tanzânia. O cozinheiro ao ser questionado sobre a metodologia usada na sua produção do sorvete, explicou que colocava o líquido ainda quente na geladeira e que tinha aprendido com o irmão, produtor de sorvete há muitos anos, que o sorvete ficaria pronto mais rapidamente desta forma.
Após aprovação em seus estudos iniciais, Erasto muda-se para a escola de segundo grau Mkwawa na cidade de Iringa. O primeiro assunto de física estudado foi a lei de resfriamento de Newton. Durante a aula, ele questionou o seu professor sobre a possibilidade de água quente congelar mais rápido que água fria, o que parecia contradizer a lei de Newton. Novamente, o docente respondeu que ele estava enganado e, vendo a insistência do estudante, que dizia serem suas afirmações baseadas em evidências, o docente passa a chamar as observações de Erasto Mpemba de “a física do Mpemba”. Daí em diante, qualquer erro do Erasto, um erro de matemática, por exemplo, o seu professor também passa a dizer: “Esta é a matemática do Mpemba”. Toda a turma reproduzia isto e o estudante tornou-se uma piada.
Qualquer outro estudante teria se intimidado frente a esta atitude de “bullying” do professor, mas Erasto Mpemba era resiliente. Certo dia, ao encontrar o laboratório de biologia da escola aberto, ele colocou uma mesma quantidade de água em dois copos do tipo becker, um com água a 100 oC e outro a 35 oC. Uma hora depois, ele observou que no copo onde a água inicialmente estava a 100 oC, havia mais gelo que no copo com água inicialmente a 35oC. Confiante no experimento e aproveitando a palestra de um professor da Universidade Dar es Salaam em sua escola, ele perguntou ao Dr. Osborne se este saberia explicar tal resultado tão inusitado. Os colegas de Erasto o disseram que ele os havia envergonhado ao fazer a pergunta e que o seu objetivo seria fazer uma pergunta que o Dr. Osborne não saberia responder. Contudo, diferentemente dos professores anteriores, embora não soubesse a razão do resultado interessante, o Dr. Osborne prometeu testar em seu laboratório e encorajou o estudante a repetir o experimento.
Desta parceria tão peculiar nasce a primeira publicação relatando o fenômeno que passou a ser intitulado por Efeito Mpemba. Este artigo deu origem a outros experimentos mais detalhados, simulações e teorias. Hoje já se sabe, graças a estes experimentos, que o congelamento da água depende de processos de convecção e evaporação superficial governados pela dinâmica das ligações de hidrogênio. Esta dinâmica gera caminhos de congelamento distintos. Podemos imaginar que no congelamento existam muitas estradas para se chegar a 0 oC, estradas estas que diferem pela temperatura inicial da trajetória.
Cientistas de todo o mundo ainda buscam a compreensão teórica deste comportamento esquisito da água revelado pelo curioso e resiliente menino africano.
(Marcia Barbosa é Professora Titular da UFRGS e Diretora da Academia Brasileira de Ciências, e Rogelma Ferreira é professora da UFRB)
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