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26 de set de 2016

DIVERSIDADE DE PLANTAS...MATAS SECAS...CONSERVAÇÃO

Estudo demonstra diversidade das florestas secas



 Ancestrais, com linhagens de plantas mais antigas do que da Amazônia ou Cerrado, as florestas secas resistem ao tempo e à ocupação. Os solos férteis que as abrigam são um convite à agricultura ao mesmo tempo em que a escassez de água contribui para ambientes inóspitos. E apesar de alguns países latino-americanos guardarem menos de 10% de suas florestas secas originais, o importante é que elas ainda resistem. E melhor assim, pois guardam uma biodiversidade rica e ainda pouco estudada, que ganhou a capa da revista Science.

No artigo publicado em 23 de setembro, a equipe de pesquisadores da Rede Latino-americana de Florística de Florestas Tropicais Sazonalmente Secas (Dryflor) conta 6.958 espécies de árvores em matas secas em todo continente. O número é bem menor que as espécies listadas para a Amazônia, mas é preciso levar em consideração que a floresta úmida é muito mais estudada, com muito mais levantamentos de campo realizados. O estudo demonstrou também que áreas de florestas secas possuem composição florística diferente entre elas, de modo que raramente compartilham as mesmas espécies.

“Ao ser publicado numa das revistas científicas de maior prestígio, esperamos que ajude a chamar a atenção para esse ecossistema tão incrível e ao mesmo tempo esquecido”, acredita a bióloga Flávia Pezzini, que participou do estudo. “As matas secas foram berço da civilização pré-colombiana e a fonte de importantes cultivos como o milho, feijão e tomate. Mas historicamente foi bastante destruída e pouco estudada”, completa.

No mapa da continente americano, as matas secas aparecem distribuídas desde o México e Sul da Flórida até o Norte da Argentina, passando por ilhas do Caribe, Andes. No Brasil, ocupa áreas da Mata Atlântica e Cerrado, mas é identificada com a Caatinga, que se estende por aproximadamente 850 mil quilômetros quadrados. Apesar se ser exclusivamente brasileiro e ocupar cerca de 11% do território nacional, o bioma que ocupa o Nordeste e norte de Minas já teve 47% de sua área desmatada e conta com apenas 1% de sua extensão legalmente protegida.

Os autores do artigo defendem que a conservação da diversidade biológica das matas secas seja considerada uma prioridade. São espécies adaptadas ao calor e à seca, condições que provavelmente se tornaram mais intensas na região tropical. Eles destacam a necessidade de serem criadas várias áreas de proteção espalhadas por diversos países para proteger a diversidade dessa vegetação.

A rede Dryfor é liderada pelo Jardim Botânico Real de Edimburgo e inclui mais de 50 pesquisadores e conservacionistas. Ela é financiada pela Leverhulme Trust International Network, fundado em 1925.

18 de set de 2016

O QUE SE TEM FEITO COM OS ÍNDIOS NO BRASIL

Como e onde corre o sangue dos indígenas no Brasil hoje


17 de setembro de 2016 


A violência e a desassistência de que são vítimas os indígenas no Brasil seguem gravíssimas, segundo o relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – Dados de 2015, lançado ontem (15/09), em Brasília.

Compilados pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), os dados revelam que, só no ano passado, foram registrados 87 casos de suicídio entre indígenas no país, sendo que mais da metade deles (45) ocorreu no Mato Grosso do Sul; entre 2000 e 2015, foram 752 casos só neste estado. O relatório registra ainda 137 assassinatos de indígenas em 2015; um quarto do total (36) no Mato Grosso do Sul.

Quase 600 crianças indígenas com até cinco anos morreram no mesmo período, em geral, de doenças facilmente tratáveis, como pneumonia, diarreia e gastroenterite. A taxa de mortalidade de crianças até um ano no Mato Grosso do Sul, de 26 por mil nascidos vivos, é o dobro da média nacional.

Conflitos de terras, assassinatos, suicídios, mortalidade na infância seguem vitimando os índios, aponta relatório divulgado ontem pelo Conselho Indigenista Missionário


A ineficácia do governo na demarcação de Terras Indígenas (TIs) e na prestação de serviços básicos, como saúde e educação, foi apontada como a principal razão para o quadro de violação de direitos sistemática.

“As mortes físicas, a violência física, decorrem da luta pela terra, decorrem da luta pela demarcação”, avaliou o procurador Luciano Maia, coordenador da 6ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal, durante o lançamento do relatório. “Como consequência, não podemos afastar como sendo parte do problema, e ao mesmo tempo de uma solução, lutar para reconhecer para todos os índios o direito a suas terras de ocupação tradicional”, concluiu.

A coordenadora da pesquisa do Cimi, Lúcia Helena Rangel, avalia: “Esse grau de perversidade contra a população indígena vem de diversos lados. Vem do fazendeiro, vem do capanga, vem de um cidadão qualquer que se julga no direito de matar uma criança”, fazendo referência ao assassinato de Vítor Kaingang, de apenas dois anos, morto no colo da mãe em dezembro de 2015 na rodoviária no município de Imbituba (SC).

Dois dias antes da divulgação do relatório, a comunidade indígena Guarani Kaiowá de Kurusu Ambá, em Coronel Sapucaia (MS), sofreu o quinto ataque do ano. Pistoleiros dispararam tiros e atearam fogo à área (saiba mais). Em Brasília, Elson Canteiro, do povo Guarani Kaiowá, destacou a situação dos indígenas no estado. “Hoje a gente vive em um momento muito crítico porque a gente vive em uma área de retomada. A gente está sofrendo diariamente com violações graves”,afirmou.

O relatório do Cimi é hoje uma das poucas fontes de informação sobre situações de violência contra povos indígenas no país. Para Marta Azevedo, demógrafa especialista em povos indígenas e ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), falta vontade política dos órgãos oficiais para consolidar sistemas de informações sobre essas populações. “É um absurdo não termos dados oficiais públicos anuais para mortalidade infantil e infantojuvenil e sobre mortalidade de causas violentas entre a população indígena. A melhoria dos sistemas de informações sobre os povos indígenas é uma decisão que exige vontade política”, critica, em entrevista o ISA.

Não demarcar terras também é violência

A primeira parte do relatório reúne casos de violência contra o patrimônio indígena, que incluem morosidade na demarcação de terras indígenas, conflitos relativos a direitos territoriais, invasões, exploração ilegal de recursos e danos ao patrimônio.

Em 2015, o Cimi registrou 18 conflitos envolvendo direitos territoriais. Mais uma vez, o estado campeão foi o Mato Grosso do Sul, com dez registros. Também foram levantados 55 casos de invasões, exploração ilegal de recursos e danos ao patrimônio. A maior parte (18) foi no Maranhão, que continua a reunir, em 2016, casos semelhantes. Também foram coletados 52 casos de desassistência na saúde, cuja maioria foi no Maranhão, com 11 ocorrências.

“Esse relatório traz, na nossa avaliação, três características: a omissão no que tange à assistência das comunidades e no que tange especialmente às demarcações de terras indígenas; a perversidade no tocante às violências; a omissão quanto à realidade de devastação das áreas indígenas”, explica Roberto Liebgott, Coordenador da Regional Sul do Cimi.

Por: Victor Pires
Fonte: ISA



16 de set de 2016

CONSUMO DIÁRIO DE CARNE VERMELHA E SUAS IMPLICAÇÕES NA SAÚDE HUMANA

Eis aqui uma boa oportunidade para relembrar o ensaio do ecólogo Robert Goodland, já postado neste blog (COMER MAIS (E MELHOR) E MATAR MENOS: O DILEMA “CARNE OU CEREAIS”???):


Foto de somosnoticias.com.br

Segue-se texto divulgado no Diário da SaúdeOs resultados desta meta-análise foram publicados pela revista médica Journal of Internal Medicine (10.1111/joim.12543).

Excesso de consumo de carne

Tem crescido vertiginosamente o número de pesquisas científicas envolvendo o consumo excessivo de carnes, sobretudo carnes vermelhas.

Nesses estudos, tem sido consenso entre os pesquisadores que comer carne todos os dias é demais, que nosso corpo não precisa de tanta proteína e que, de forma mais incisiva, esse excesso de consumo de carne pode na verdade fazer mal à saúde.

Mas quais males pode causar comer carne todos os dias?

Esta foi a pergunta que se propôs responder uma equipe liderada pela Dra Alicja Wolk, do Instituto de Medicina Ambiental da Suécia.

Para encontrar as respostas, a equipe efetuou a chamada revisão sistemática, uma técnica de pesquisa que reúne todos os estudos científicos já publicados sobre o assunto e os coloca sob um mesmo crivo metodológico, descartando aqueles que não são significativos ou apresentam algum outro tipo de deficiência que impeça a comparação dos seus dados.

Problemas de saúde causados pelo excesso de carne

Veja alguns dos principais resultados da consolidação dos estudos científicos feitos até agora sobre o consumo de carne.

O consumo médio de 100 gramas de carne vermelha não processada (não industrializada) por dia mostrou-se associado com as seguintes elevações de risco à saúde: 

  • 19% para câncer da próstata avançado
  • 17% para câncer colorretal
  • 15% para mortalidade cardiovascular
  • 11% para AVC e câncer de mama

O consumo médio de 50 gramas de carne vermelha processada (industrializada) por dia mostrou-se associado com as seguintes elevações de risco à saúde: 

  • 32% para diabetes
  • 24% para mortalidade cardiovascular
  • 19% para câncer de pâncreas
  • 18% para câncer colorretal
  • 13% para acidente vascular cerebral
  • 9% para câncer de mama
  • 8% para a mortalidade por câncer
  • 4% para o câncer de próstata de qualquer tipo

Desta forma, não é à toa que alguns países já inseriram em seus programas de saúde pública novas orientações dietéticas que recomendam limitar o consumo de carne vermelha, seja natural, seja industrializada.


15 de set de 2016

ELEIÇÕES MUNICIPAIS BRASILEIRAS: AS PECULIARIDADES NA NAS REGIÕES DOS DESMATAMENTOS

[O desmatamento continua enriquecendo aqueles que desejam se fortalecer com a política]

Dezoito madeireiros tentam ser eleitos nos 52 municípios que mais desmatam no país


Reproduzido de http://amazonia.org.br/2016/09/dezoito-madeireiros-tentam-ser-eleitos-nos-52-municipios-que-mais-desmatam-no-pais/




O famoso "correntão", utilizado para desmatamento no plantio de soja, no município de Tapurah, Mato Grosso


Dono de um patrimônio de R$ 24 milhões (R$ 5 milhões em dinheiro), o candidato à reeleição na prefeitura de Marcelândia (MT), Arnóbio Vieira de Andrade (PSD), declarou à Justiça Eleitoral uma empresa chamada Ava Desmatamento e Pecuária. O nome não é à toa: as atividades estão bem interligadas na Amazônia Legal. Pecuarista, ele registrou também na Justiça Eleitoral a propriedade de duas motosserras à gasolina, profissionais, modelo 381 – destinada a corte de árvores de médio porte.

Mas sejamos justos: não encontramos nenhuma denúncia de crime ambiental contra o prefeito. O mesmo não se pode dizer de outros candidatos no Arco do Desmatamento. Várias operações – mais ou menos famosas – de combate à exploração ilegal de madeira na Amazônia tiveram a presença de políticos candidatos em 2016. Entre 52 dos municípios que mais desmatam no Brasil, 18 madeireiros tentam ser prefeitos. E a maior parte deles já esteve envolvida em alguma denúncia relativa à extração proibida ou outro tipo de crime ambiental relacionado à madeira.

É o caso do candidato à reeleição em Feliz Natal (MT), Toni Dubiella. Ele já presidiu o Sindicato das Madeireiras do município. Declarou R$ 14,8 milhões em bens este ano (bem mais que os R$ 3,7 milhões de 2012), entre eles a Madeireira Vinícius Ltda, onde trabalham 120 pessoas. O próprio site da prefeitura traz um Dubiella sorridente, se promovendo, e contando que, quando jovem, deixou a pequena empresa de seu pai em busca de seus sonhos: “tornar-se um empresário madeireiro”.

O Ibama de Sinop registrou em 2013 um auto de infração contra a empresa. Em 2015, teve a pena prescrita por um crime ambiental denunciado em 2008: a venda de 68 mil metros quadrados de madeira serrada sem licença. Não foi um caso isolado. Segundo o Ministério Público, ele dificultou a ação dos fiscais do Ibama durante uma inspeção em 2010. Estavam armazenados sem licença pedaços serrados de madeira itaúba, champagne, cupiúba, cambará, cedrinho, sucupira preta, angelim e cambará-rosa. Todos apreendidos. O Tribunal de Justiça do Mato Grosso acolheu no ano passado a denúncia.

...

[Informações mais detalhadas sobre os madeireiros candidatos estão no link no topo desta postagem]

14 de set de 2016

RESÍDUOS SÓLIDOS: RECORDE DE EMISSÃO DE GASES EM 2014

Reproduzido de http://www.observatoriodoclima.eco.br/emissao-de-gee-do-setor-de-residuos-atinge-seu-maior-nivel-em-2014-e-consolida-trajetoria-de-crescimento/
13/09/2016 

Estimativa é do SEEG, que lançou nesta terça-feira relatório com a análise da trajetória dos
gases de efeito estufa no setor desde 1970 tendência de alta se consolida


As emissões de gases de efeito estufa provenientes do setor de resíduos sólidos continuam sua trajetória de crescimento no Brasil e atingiram, em 2014, seu maior número absoluto nos últimos 44 anos, segundo as estimativas divulgadas pelo Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), nesta terça-feira. Foram lançadas 68,3 milhões de toneladas de COequivalente na atmosfera naquele ano, o que representa um crescimento de 80% entre 2000 e 2014 e de 500% desde 1970.

Enquanto o setor de resíduos representa a menor parcela de contribuição de emissões com relação aos demais setores (mudança de uso da terra, energia, agropecuária e processos industriais), cerca de 3,7% do total verificado em 2014, ele possui grande impacto na atmosfera devido à geração de gases com maior potencial de aquecimento global, como o metano (CH4), 21 vezes mais potente que o CO2, e o óxido nitroso (N2O), 310 vezes mais potente.

Dentre os quatro principais subsetores – disposição de resíduos, tratamento de efluentes industriais, tratamento de efluentes domésticos e incineração de resíduos -, o descarte ainda é o mais expressivo em termos de emissões, representando 66,1% em média da origem das emissões nos últimos 44 anos.

Com o crescimento do número de municípios que se adequam à Política Nacional de Resíduos Sólidos, verificou-se o aumento das emissões, uma vez que o descarte exigido em aterros sanitários propicia maior geração de metano (decomposição anaeróbica da matéria orgânica). “É importante ressaltar que a quantidade de resíduos gerada no Brasil aumentou significativamente nos últimos anos, tanto em termos absolutos quanto na produção per capita”, afirmou Igor Reis de Albuquerque, gerente de Mudanças Climáticas do ICLEI- Governos locais pela sustentabilidade e coordenador do setor no SEEG.

Acompanhado do crescimento na produção dos resíduos, o seu reaproveitamento ainda é extremamente baixo e o descarte não ocorre de forma ambientalmente adequada. De acordo com dados da Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais) de 2014, destacados no Relatório Analítico do Setor de Resíduos do SEEG, 58,4% dos resíduos sólidos urbanos coletados tiveram destinação adequada (Aterros Sanitários). Os outros 41,6%, equivalentes a 81 mil toneladas diárias, ainda são destinados para aterros controlados e lixões. Esse conjunto de fatores pode estar associado ao impacto crescente as emissões de GEE no setor de resíduos, além do crescimento demográfico e da atividade industrial, explicou Albuquerque.

Uma das alternativas para a redução das emissões seria o aproveitamento dos gás metano para geração de energia. “Aterros sanitários, sendo obras planejadas, podem conter sistemas de captação de metano para aproveitamento energético ou para conversão do mesmo em dióxido de carbono por meio de flare [queima], podendo assim reduzir o impacto na atmosfera”, explicou Igor de Albuquerque.

Tanto com relação ao tratamento dos efluentes domésticos quanto o de efluentes industriais, as emissões apresentaram tendências de contínuo crescimento nas últimas décadas. Para o subsetor industrial, identificou-se um avanço mais acelerado após 1996, com picos de emissões em dois períodos de intensificação da urbanização e maior desenvolvimento industrial (1994-1998 e 2007-2010), segundo informações do SEEG.

Análise global dos dados

As emissões de gases de efeito estufa do Brasil em 2014 permaneceram estáveis em relação ao ano anterior, apesar da queda de 18% na taxa de desmatamento da Amazônia. Segundo os dados do SEEG 2015, o Brasil emitiu 1,558 bilhão de toneladas de gás carbônico equivalente (t CO2e), uma redução de 0,9% em relação ao 1,571 bilhão de toneladas emitidas em 2013 (emissões brutas).

Em sua terceira edição, o Relatório Síntese do SEEG apresenta as estimativas para o ano de 2014, bem como a revisão dos dados da série histórica de 1970 a 2014 para os padrões metodológicos do 3º Inventário Nacional de Emissões Antrópicas e Remoções por Sumidouro de Gases de Efeito Estufa não Controlados pelo Protocolo de Montreal. Para o setor de  Mudanças de Uso da Terra seguiu-se a metodologia do 2o Inventário.

Acesse o Relatório Síntese e as Análises Setoriais em:

http://seeg.eco.br/analise-de-emissoes-de-gee-no-brasil-1970-2014/

13 de set de 2016

ZIKA CAUSA LESÃO CEREBRAL EM FETO DE MACACO

Artigo (original) publicado em:
Nature Medicine
 
 
doi:10.1038/nm.4193

Pela 1ª vez, cientistas registram lesão cerebral por zika em feto de macaco

Pela primeira vez, cientistas conseguiram registrar a ocorrência de lesões cerebrais em um feto de macaco cuja mãe foi infectada pelo vírus da zika. Antes disso, pesquisadores só tinham conseguido reproduzir a microcefalia por zika em camundongos, em um importante estudo brasileiro publicado em maio na revista “Nature”.


Pesquisas anteriores também já tinham sido bem sucedidas em infectar primatas não-humanos com o vírus zika, mas esta é a primeira vez que se consegue reproduzir as malformações decorrentes do vírus nesses animais.

Trata-se de um avanço importante já que primatas humanos e não-humanos têm muitas similaridades, por isso os macacos podem servir para testar estratégias terapêuticas contra o vírus de forma mais eficiente do que os roedores.

O estudo atual, liderado por pesquisadores da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, foi publicado na revista “Nature Medicine” nesta segunda-feira (12/setembro/2016).

“Nossos resultados eliminam qualquer dúvida que possa ter restado de que o vírus  zika é incrivelmente perigoso para o feto em desenvolvimento e dá detalhes de como as lesões cerebrias se desenvolvem”, afirmou a pesquisadora Kristina Adams Waldorf, professora da Universidade de Washington e principal autora do estudo, em um comunicado divulgado pela instituição.

Segundo os pesquisadores, os problemas observados no desenvolvimento cerebral dos fetos de primatas são compatíveis com a síndrome congênita do zika observada em humanos. “Ficamos chocados quando vimos a primeira imagem de ressonância magnética do cérebro fetal 10 dias após a inoculação do vírus. Não tínhamos previsto que uma área tão grande do cérebro fetal seria danificada tão rapidamente”, disse a pesquisadora Lakshmi Rajagopal, também professora da Universidade de Washington e uma das autoras do estudo.

Essa rapidez sugere, segundo Lakshmi, que quando uma mulher grávida apresenta sintomas de zika, o cérebro do feto pode já ter sido afetado pelo vírus. Por isso, uma estratégia de prevenção da microcefalia deveria ser tomada no momento da picada do mosquito para impedir a ação do vírus ou por meio de vacina, de acordo com a pesquisadora.

O estudo, que foi feito com uma espécie de primata denominada Macaca nemestrina, mostrou ainda que o nível de vírus presente no cérebro do feto era mais alto do que o encontrado na mãe. (Fonte: G1)

10 de set de 2016

SE AS QUEIMADAS NA AMAZÔNIA MOSTRAM QUE OS RISCOS DE SUA DESTRUIÇÃO SÃO UMA POSSIBILIDADE...É BOM ACREDITAR

No Mato Grosso, cientistas projetam o fim da Amazônia pelas queimadas

No Projeto Tanguro, que acontece em uma fazenda, os pesquisadores do Ipam monitoram as antas, animal que pode ajudar na regeneração da floresta. 



Do alto de uma torre de 36 metros o que se vê são árvores mortas espalhadas pelo chão. Os rastros do fogo ainda são visíveis em alguns troncos. No ambiente sem animais, não há mais vida.

Essa é a imagem de uma área da Fazenda Tanguro, no município de Querência, no noroeste do Mato Grosso, que sofreu uma queimada com o propósito científico para entender quais são os reais impactos ambientais causados pelo fogo numa região de transição do Cerrado com a Floresta Amazônica.

O experimento, autorizado pelo órgão ambiental estadual, é desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) da fazenda, que pertence ao Grupo Amaggi, da família do atual ministro da Agricultura, Blairo Maggi (PP-MT).

Chamado de Projeto Tanguro, o objetivo do experimento com as queimadas, segundo o Ipam, é buscar maneiras de reduzir os impactos da agricultura na Amazônia e avaliar as consequências do fogo na principal fronteira agrícola do país, onde a monocultura da soja avança sobre a floresta.

De acordo com o Monitoramento de Queimadas e Incêndios do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Mato Grosso lidera, em 2016, o ranking dos estados com mais índices de focos de calor. De janeiro a agosto foram 16,5 mil registros pelos satélites. Em seguida estão os estados Pará (com 8.969 focos), Tocantins (com 8.844), Maranhão (7.712), Amazonas (com 6.114) e Rondônia (5.175).

O triângulo do fogo

A agência Amazônia Real acompanhou por uma semana os trabalhos dos cientistas do Projeto Tanguro. A fazenda tem ao todo 83 mil hectares. Na parcela de floresta destruída pelas queimadas, uma área de 1.600 metros quadrados da reserva legal (com 50 mil hectares), os pesquisadores também analisam os efeitos da destruição de áreas naturais sobre a bacia hidrográfica, e como a fauna local pode contribuir para a regeneração do ambiente.

As pesquisas são desenvolvidas desde 2004, quando se iniciou o Projeto Tanguro e a primeira queimada. Elas ocorrem divididas em escala anual e outras a cada três anos. A partir daí são observadas a reação do ecossistema nestes intervalos de tempo distintos. A última delas foi em 2010. Passados seis anos, é possível ver a destruição que o fogo causa à floresta e sua dificuldade em se recuperar.

A queima acompanhada pela reportagem aconteceu a 10 km de distância da área já impactada. Com a presença de pesquisadores, estudantes e jornalistas, as equipes foram divididas entre as parcelas estudadas. O primeiro trabalho é delimitar a área. Com uso de tremas e marcadores, é delimitado o tamanho.

Em seguida, é feito o cálculo do “combustível” presente na floresta. As folhas e outros tipos de vegetação seca formam o combustível necessário para as labaredas se espalharem. Em sacos de papel são colocadas as folhas para se calcular a presença de umidade –cálculo este feito em laboratório.

A vegetação sem umidade também é chamada de “fonte de ignição”, a partida para o início do fogo. A geógrafa Ane Alencar é pesquisadora do Ipam e coordena a área de Geotecnologia e Monitoramento do instituto. Ela estuda as queimadas na Amazônia. Segundo ela, para os incêndios ocorreram é necessária a junção de três fatores, denominados de “triângulo do fogo”: combustível, condições ambientais e material de ignição.

“Estamos acumulando mais fonte de ignição. Tanto a floresta aberta quanto a de transição estão sofrendo com o fogo, mesmo em áreas mais úmidas”, diz Ane Alencar. Nesta área de transição com o Cerrado a floresta tem o nome de estacional. As árvores apresentam copas menos robustas e alturas mais baixas se comparadas às da Amazônia em sua porção densa, mais ao norte.

O avanço do agronegócio

A Amazônia em Mato Grosso vem sendo historicamente agredida pelo agronegócio. Após a chegada da pecuária no início da década de 1970 que resultou na abertura de milhares de hectares de pastagem, os bois vêm sendo substituído pelo plantio de grãos, commodity que se tornou atrativa ante seu alto valor e demanda no mercado internacional.

O resultado foram mais áreas de floresta derrubadas e queimadas nos últimos 20 anos. Este avanço ganhou repercussão internacional e fez governos e organismos internacionais pressionarem o Brasil para conter o desmatamento. Uma das primeiras imposições foi deixar de comprar carne e grão de fazendas que tivessem contribuído para o aumento do desmatamento na Amazônia.

Entre os líderes deste desmatamento estava o próprio empresário Blairo Maggi, que chegou a ganhar a “motosserra de ouro” concedida pela organização ambientalista internacional Greenpeace. Ante a imagem negativa, os negócios da família Maggi precisaram passar por reformulações e o termo sustentabilidade foi incorporado a suas práticas.

Por meio dos estudos e análises, os pesquisadores do Ipam mostram que manter a floresta viva pode ser muito mais rentável para a atividade de produção de grãos.

“As áreas de planto acumulam muito mais água no solo, pois sem as árvores não há como ocorrer a transpiração. Sem elas existe uma contribuição para o aumento de temperatura e a redução de umidade que provoca a chuva. Houve um aumento de 17 dias da estação seca nos últimos anos”, diz o ecólogo Paulo Brando, coordenador de pesquisas do Ipam.

Sem floresta, sem chuvas

Segundo Paulo Brando, 37% da região amazônica vem apresentando chuvas abaixo da média, o que contribui não somente para a queda da produção agrícola como para o aumento de incêndios. No primeiro semestre deste ano Querência decretou situação de emergência por conta da estiagem.

Outro pesquisador do Ipam, Divino Silvério diz que sem floresta, mais energia solar é refletida para a atmosfera. Os estudos apontam que, enquanto apenas 10% da energia dos raios do Sol que chegam à floresta voltam para a atmosfera, nos campos de soja esse índice é de 22%. “A floresta funciona como um grande ar-condicionado. Constatamos que a diferença de temperatura entre a floresta e o campo de soja chega a ser de cinco graus”, afirma.

Os 90% de energia solar que fica na floresta é convertido em calor latente, responsável pelo processo de evapotranspiração das árvores que formarão a umidade para a chuva, completa Paulo Brando. “Num primeiro momento pode-se falar que o campo de soja contribui para o esfriamento do globo pois há mais energia refletida, mas a formação de nuvens é maior na área sobre a floresta, e com mais nuvens se tem uma reflexão maior [dos raios solares]”, diz o pesquisador.

Em outra ponta de estudo, Márcia Macedo avalia o impacto das atividades rurais na água da região. A fazenda está cercada por dois rios: Tanguro e Darros. Os dois mais os córregos que cruzam a propriedade fazem parte da Bacia Hidrográfica do Alto Xingu. Por meio da coleta de amostras de água em córregos dentro de duas APPs (Área de Proteção Permanente) da fazenda, ela avalia a presença de nutrientes e a vazão dos córregos.

“A vazão na área degradada é três vezes maior do que na não degradada. Ainda não detectamos a presença de fertilizante, como o nitrato, na água. Por enquanto o solo tem absolvido todos os fertilizantes e não tem afetado a água”, afirma Márcia Macedo.

Antes da lavoura ser a atividade predominante na região, o gado se espalhava por toda a fazenda. Em seu auge, a Tanguro chegou a ter 30 mil cabeças de boi até 2007. Para matar a sede desta população bovina, represas foram construídas, desviando o curso natural de muitos mananciais. Estima-se em mais de 10 mil a quantidade de represas na Bacia do Xingu. Márcia Macedo faz comparações entre a água destes reservatórios e a presente dentro das de floresta preservada.

A presença ou ausência da floresta, a água do solo e dos mananciais são os fatores essenciais para a formação de chuvas.

Cemitério de árvores

Amazônia Real visitou as áreas que passaram nos últimos anos pelo experimento do fogo. A mais recente ocorreu em 2010. Mesmo passados seis anos, é possível perceber os impactos agressivos que o fogo causa à floresta. Árvores mortas espalham-se pelo chão. Em algumas ainda é possível ver a marca o rastro do fogo. Onde antes havia uma floresta viva, agora uma vegetação rasteira se desenvolve. Do alto de uma torre de observação de 36 metros a impressão que se tem é de uma regeneração rápida em meio à mata preservada.

Mas a um olhar mais atento é possível ver as clareiras. Ao se andar por entre as parcelas incendiadas os danos ficam muito bem perceptíveis.

“Mesmo aquelas árvores que sobreviveram ao fogo depois tiveram algum tipo de impacto, sobretudo com o vento. Como não há mais floresta, o vento forte acaba atingindo com mais intensidade aquelas que estão em pé. Com isso, elas ficam propícias a cair já que suas estruturas ficaram comprometidas”, diz o pesquisador Divino Silvério.

Exemplo disso aconteceu em uma tempestade recente que atingiu a Fazenda Tanguro. “A queda de árvores nas áreas degradadas pelo fogo chegou a 18%, enquanto na de floresta nativa foi de 9%”, afirma Silvério. Os pesquisadores não sabem afirmar com precisão quantos anos –ou séculos – serão necessários para aquela parcela queimada voltar a ser como era. De acordo com eles, isso dependerá de vários fatores. “Este é um processo não linear”, resume Divino Silvério.

No rastro da anta

E em meio a esta enxurrada de probabilidades que influencia a regeneração há um animal silvestre que está na lista das espécies da fauna ameaçada de extinção: a anta (Tapirus terrestris). Maior mamífero terrestre da América do Sul, ela se espalha pelos diferentes biomas brasileiros, com predominância na Amazônia e no Pantanal. No Projeto Tanguro, as antas estão com a sobrevivência protegida.

Os estudos sobre a contribuição da anta no processo de recuperação de áreas degradadas são liderados pelo biólogo Rogério Libério, também do Ipam. Sua missão não é nada nobre: catar fezes de anta feitas nas parcelas para saber quais tipos de sementes ela espalha pelo solo. Por ser herbívoro, o mamífero come uma grande quantidade de frutas e folhas cujas sementes depois são descartadas por meio das fezes.

“A anta já é conhecida por seu potencial de ser um dispersor de sementes. 50% de sua dieta é baseada em frutas, mas além disso ele possui uma grande área de vida. Para entender se a anta tem um papel na dispersão e na regeneração de áreas degradadas temos que provar que eles as utilizam como área de vida. É preciso que elas estejam lá”, explica Rogério Libério. Amazônia Real participou de uma das etapas de localização e coleta das fezes. Antes de enviar o material para análise em laboratório, é preciso fazer um trabalho (sujo) de peneira para separar as sementes.

As antas fazem suas necessidades em espaços próximos um dos outros que são chamados de latrinas. “Acreditamos que essa é uma forma de marcar território. Observamos que após defecar elas urinam e movem as patas traseiras”, afirma o cientista do Ipam.

A forma encontrada de monitorar as antas foi por meio de câmeras instaladas na floresta. Além de captar a imagem delas, as câmeras flagram toda a manifestação de vida animal nesta região de transição entre dois importantes biomas do país, e que há tempos são impactados pelo avanço do agronegócio.