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19 de ago de 2009

IPTU ECOLOGICAMENTE CORRETO

Mais ou menos com este título, divulga-se na mídia que na cidade de São Carlos, interior de São Paulo, a prefeitura introduziu incentivo para que pessoas plantem árvores nos seus quintais e obtenham redução no IPTU ─ Imposto Predial e Territorial Urbano.
Lembrei-me imediatamente que em 1998, ao atender convite para proferir palestra num encontro realizado em João Pessoa, por iniciativa da Fundação Pedroso Horta, do PMDB, escolhi o tema EDUCAÇÃO AMBIENTAL AUTOSSUSTENTÁVEL: SUBSÍDIOS PARA IMPLANTAÇÃO DE UM PROGRAMA DE AÇÃO NA PARAÍBA. E nele, dentre os três processos que sugeri para implantação do programa, destaco aqui os INCENTIVOS FISCAIS, cuja proposta explicito como segue (em resumo):
É impressionante a nossa reduzida (para não dizer “totalmente inexistente”) capacidade em estabelecer distinções nas arrecadações de “impostos”, no que diz respeito às diferentes características dos imóveis, conforme sejam eles “ambientalmente adequados ou não”. Projetos inteligentes/criativos, que contemplem medidas que estimulem economias de água e energia, e beneficiem os recursos naturais, devem receber incentivos, no que diz respeito aos impostos.
São sugeridos aqui alguns elementos que podem ser usados no estabelecimento de diferentes classes de IPTU: A) Economia de água e energia (reutilização de água residuária; captação e retenção de água pluvial; uso da energia solar, eficiência na luminosidade natural). B) Eficiência na ventilação; arborização eficiente (a arborização, diferentemente dos jardins, é mais econômica quanto ao uso de água de rega e manutenção em geral); fruteiras geram alimento. Leguminosas eficientes na fixação biológica de nitrogênio dispensam uso de adubo nitrogenado e fornecem madeira para consumo energético e outros). C) “Geradores de poluentes, impostos diferentes”. D) Existe construção anti-ecológica? Claro que sim! Geralmente são prédios e casas luxuosas onde: (d.1) há muitos ambientes fechados (com ventilação e luminosidade naturais precárias) visando o uso de ar condicionado; (d.2) como conseqüência há uso excessivo de iluminação artificial; (d.3) piscina que não reutiliza a água (para outros fins), quando renovada; (d.4) material não produzido na região ou material em escassez na região; (d.5) água de precipitação pluvial (que cai sobre área calçada) conduzida para o esgoto sanitário. E) Terrenos baldios. Em termos ambientais (ou ecológicos) um terreno arborizado é mais benéfico ao meio, do que um terreno abandonado. Portanto, se a sua localização vale um imposto “x”, a do abandonado deveria ser “x+1”.

... E outros aspectos que comentei naquela palestra e que foram divulgados pela referida Fundação. A cooptação de parcerias, o “querer fazer” e a decisão para implantar um programa fundamentado em incentivos fiscais, certamente renderiam frutos que realimentaria o processo de autossustentabilidade.
Finalizando: a formação de uma consciência coletiva voltada para a melhoria da qualidade de vida ambiental requer (inclusive) incentivo financeiro. Mesmo que seja somente pela redução de impostos!
A demora em visualizar e implementar melhorias a partir de medidas simples, como esse exemplo de São Carlos e como vários exemplos já há tempo praticados em Curitiba, é desanimador! Acho que vou me aposentar novamente e, desta vez, DEFINITIVAMENTE.

29 de jul de 2009

HORMÔNIOS NA ÁGUA DE BEBER

(Notícia extraída da revista Scientific American, de 28 de julho de 2009)

NÃO SE ASSUSTEM!!! AINDA NÃO É AQUI NO BRASIL.
Quantidades-traço de medicamentos sob prescrição médica têm sido encontradas em várias unidades de tratamento de água, podendo atingir cerca de 46 milhões de pessoas em nove Estados nos Estados Unidos, segundo investigações do “U.S. Geological Survey” (Levantamento Geológico dos Estados Unidos) feitas em 2008. Foram detectadas 85 substâncias produzidas pelas indústrias, estando entre elas anticoncepcionais.
Atualmente discute-se se tais substâncias se apresentam em níveis que possam causar preocupações. E discute-se também se há efeitos somatórios (sinergísticos) dessas substâncias em quantidades-traço; ou seja: “quantidades-traço de uma substância mais as de outra resultam em quê”???. Alguns pesquisadores afirmam que mesmo em concentrações diluídas, alguns resíduos de medicamentos causam danos em peixes, anfíbios e algumas outras espécies aquáticas; e que em laboratório foram feitos testes que demonstraram efeitos prejudiciais em células humanas. Um exemplo: estrogênio, expelido na urina de mulheres tomando anticoncepcionais e encontrado em esgotos, atuaram sobre reprodução de peixes, produzindo descendentes inférteis, segundo pesquisas na Universidade de Pittsburgh; e também mostraram que células cancerosas de seio humano cresceram duas vezes mais rápido quando expostas a estrogênio extraído de peixes-gato capturados próximos a locais inundados com esgotos não-tratados. A preocupação reside no fato de que há pessoas com tendências naturais a ter câncer causado por estrogênio (segundo o líder da equipe de pesquisa, Dr. Conrad Volz).
A filtração de tais substâncias somente tem se mostrado positiva nos casos em que se aplica o sistema de “osmose reversa” (passagem por uma membrana ultrafina semi-permeável, deixando passar somente a água). O uso de filtro de carvão ativado ainda gera dúvidas quanto à eficiência. Alguns sugerem que talvez o ideal seja o uso simultâneo desses dois sistemas de filtração.
Uma agência não-governamental internacional de saúde (“NSF International”; site: www.nsf.org) sugere que resíduos de medicamentos não devem ser jogados no sistema de esgoto sanitário, mas sim descartados no lixo normal, sendo posteriormente jogados nos aterros sanitários apropriados.

10 de jul de 2009

“BIOCHAR”: SOLUÇÃO DA GEOENGENHARIA OU PRETEXTO PARA CONTINUAR POLUINDO?!


Este termo “biochar” resulta de “biomass + charcoal” (biomassa + carvão, em inglês). Surgiu da observação da existência da nossa “terra preta dos índios”, solo da Amazônia central. Trata-se de trecho de latossolo caolinítico amarelo (originariamente pobre em nutrientes) onde se supõe que ao longo do tempo os índios foram acumulando matéria orgânica, tornando-o muito fértil. É considerado um epipedon antropogênico, ou seja, um horizonte superficial originado de atividades humanas. O processo de produção do “biochar” consta basicamente, de pirólise de biomassa (400 a 500oC) em atmosfera quase sem oxigênio, formando-se assim carvão, com emanação de alguns gases do efeito estufa. A foto ao lado (da revista “Nature”) mostra um forno de microondas para produzir “biochar” em escala industrial, na Nova Zelândia.
Defensores desse “carvão com nome sofisticado”, como o pesquisador Johannes Lehmann, professor da Universidade de Cornell, E.U.A., visualizam grandes benefícios para o nosso planeta no aspecto relacionado ao seqüestro de carbono. Calcula-se que anualmente são emitidos para a atmosfera de 8 a 10 bilhões de toneladas de carbono. Admitindo-se que mais ou menos metade seja adsorvida pelos oceanos e ecossistemas terrestres, cerca de 4 bilhões permanecem na atmosfera. As plantas verdes, no entanto, são capazes de absorverem mais de 60 bilhões de toneladas pela fotossíntese. Mas como as próprias plantas emitem gás carbônico em grandes quantidades para a atmosfera, pela respiração, o armazenamento de carbono no solo poderia ser um meio eficiente de tirá-lo de circulação. Calcula-se ainda que uns 10% dessas 60 bilhões de toneladas de carbono terminem no ambiente como resíduos (de cultivos, das florestas, dos animais...); ou seja, 6 bilhões de toneladas, metade das quais, ou 3 bilhões de toneladas de carbono, poderiam ser submetidas a pirólise e transformadas em “biochar”.
Defensores desse produto ainda consideram que a própria biomassa geraria a energia suficiente para a pirólise e que um terço da biomassa seria biocombustível. Florestas seriam introduzidas nos 900 milhões de hectares de terra degradada, no mundo. Idéia esta melhor do que a de outros pesquisadores, que sugerem que florestas sejam derrubadas para produzir “biochar” e depois replantadas... e assim por diante! Johannes Lehmann, seu principal defensor, sugere que muitos solos melhorariam sua produtividade. Haveria adição de alguns nutrientes, como fósforo, potássio, zinco, cálcio. Isto certamente não seria aconselhado a ser feito nos latossolos da Amazônia, pois o cultivo itinerante ali praticado pelos indígenas (e até hoje imitado por muitos dos exploradores da Amazônia) mostrou ser improdutivo (o solo se beneficia em curto espaço de tempo com o acréscimo desses nutrientes, que são absorvidos pelos plantios e levados do local em forma de produtos alimentícios ou fibras, e o restante é facilmente lixiviado pela alta precipitação pluvial local).
Os críticos do “biochar” advertem que enterrá-lo no solo poderá significar que ali ele ficará por milhares de anos. Talvez não fique, se não for enterrado muito profundo. Pesquisa de um cientista sueco (Wardle, D. A. Science 320, 629 (2008)) mostrou que pelo menos em floresta boreal na Suécia o carvão, quando misturado ao húmus, se decompõe mais rápido do que se supunha. Mas há quem aponte problemas ambientais outros, como Almuth Ernsting, um pesquisador de organização britânica ambiental (“Biofuelwatch”): o seqüestro de (modestos) 1 bilhão de toneladas de carbono, por esse processo, requereria 500 milhões de hectares de terra, enquanto as florestas remanescentes tropicais representam hoje cerca de 1,5 bilhão de hectares.
Em se tratando do “biochar” e o aquecimento global, em solos tropicais, eu vou um pouquinho mais adiante! Em experimentos que realizei na Estação Experimental de Rothamsted (Inglaterra), comparando reações dos microrganismos ao aumento de temperatura [trabalhos publicados em Soil Biology and Biochemistry (1997) 30 (10/11): 1309-1315; e na Revista de Microbiologia (1997) 28(1): 5-10)] observei que: o total de carbono respirado pela microbiota dos solos tropicais mantidos a 35oC ao longo de 150 dias de incubação, foi na faixa de 2,6 a 4,5 vezes o C presente inicialmente na biomassa microbiana; e a faixa correspondente dos solos temperados foi de 3,2 a 9,7 vezes. Algumas conclusões: (a) a microbiota de ambos os conjuntos de solos consumiram não somente o carbono da matéria orgânica neles existentes, mas também alimentaram-se dos microrganismos mortos, emanando carbono pela respiração; (b) em ambos os solos os microrganismos mostraram que com o aquecimento global, eles contribuirão com mais carbono para a atmosfera (os solos temperados mais do que os tropicais).
Em termos do que vai acontecer com um “biochar” nos nossos solos tropicais, ainda ficam algumas perguntas que precisam ser respondidas, como por exemplo: (i) como se comportarão os microrganismos com o aumento da relação carbono:nitrogênio (se for muito alta, a microbiota poderá consumir o pouco nitrogênio disponível, não liberando-o para as plantas); (ii) que tipo de conseqüências poderá o “biochar” no solo causar aos demais escassos nutrientes, abaixo dos 15 cm superiores mais férteis dos nossos latossolos da floresta amazônica e da mata atlântica, por exemplo; (iii) em termos físico-químicos, quais serão as conseqüências... e outros questionamentos que certamente pedólogos, edafólogos, agrônomos e agricultores experientes saberão melhor formular do que eu.
Talvez possa se pensar que solos desprovidos de necromassa de superfície (solos provenientes de mineração, por exemplo) possam se beneficiar com a adição do “biochar”. Mas, em todos os casos, é melhor investigar com mais precisão sobre TODO esse procedimento, antes que queiram generalizá-lo e... (o que é muito pior!) antes de acharmos que esse produto é “um santo remédio” da geoengenharia e assim não precisaremos reduzir a emissão de gases do aquecimento global... e nem precisaremos nos preocuparmos em preservar nossas florestas!!!

5 de jul de 2009

COMER MAIS (E MELHOR) E MATAR MENOS: O DILEMA “CARNE OU CEREAIS”???



Tenho me deparado recentemente com publicações e discussões sobre criação e proliferação de gado bovino e as questões relacionadas principalmente à economia e preservação ambiental (incluindo aqui a legislação ambiental), sócio-economia e saúde humana. Tenho observado que a corrente de opinião pró-ingestão de carne apresenta pontos positivamente justificáveis, mas também explicações frágeis ou contestáveis. Em termos ambientais, que me diz respeito como profissional da ecologia, devo ater-me aos aspectos que contribuam para se traçar uma política ambiental que inclua a obtenção da carne bovina num planejamento fundamentado em bases científicas agro-ecológicas, sócio-econômicas e em respeito às leis ambientais, nesta seqüência (que dão suporte ao estabelecimento de uma política ambiental que vise sustentabilidade).
Em termos de saúde humana encontramos na literatura mundial sobre alimentos, que a carne bovina tem propriedades incontestavelmente positivas (veja o quadro acima sobre a composição nutricional de carnes de animais, reproduzido de “Gado de Corte Divulga” (Campo Grande, MS, dez. 2000 no 41 ISSN 1516-5558, por Ezequiel Rodrigues do Valle). O balanço benefício-malefício da carne bovina (e/ou das carnes vermelhas em geral) se chocam, ao afirmar-se por exemplo que: “ela possui altas concentrações de ácido linoléico conjugado (CLA), composto associado à prevenção e combate de determinados tipos de câncer”; e ao mesmo tempo “seu consumo está relacionado com certas degenerações cardíacas”... e outras informações que fazem o consumidor de carne vermelha ou tornar-se fisicamente forte e resistente ou mais um paciente de uma clínica ou hospital! Se os consumidores de carnes vermelhas e embutidos (carnes processadas) lerem o artigo recentemente publicado no “Archives of Internal Medicine” (Arch Intern Med. 2009 Mar 23;169(6):562-71), sob título “Meat intake and mortality: a prospective study of over half a million people” = Ingestão de carne e mortalidade: um estudo prospectivo de mais de meio milhão de pessoas) os comedores de carne provavelmente se sentirão “aliviados” com a conclusão dos autores: “ingestão de carnes vermelhas e carnes processadas foram associadas a aumentos modestos com a mortalidade total, mortalidade por câncer e mortalidade por doença cardiovascular”. Eu, pessoalmente continuo com receio de ser incluído nesse aumento modesto!
As vantagens do rebanho bovino vão mais além quando avaliamos sua contribuição em termos de produção de leite. Embora, neste aspecto, algumas pessoas saibam que, em termos naturalistas, digamos assim, “o leite de um mamífero foi criado pela Natureza para alimentar o filhote daquele próprio mamífero”. Há indícios de que está se tornando mais freqüente nas populações humanas, o aparecimento de crianças que sejam intolerantes a leite animal (que não seja o da própria mãe). Eu, continuo consumidor moderado de leite de vaca. Um dos meus filhos, hoje com 16 anos de idade, nunca pôde consumi-lo. Após a amamentação materna, ele teve que passar a consumir leite de soja; e tem tanta ou mais saúde, do que os outros que consomem leite animal! Portanto, não me parece ser este um problema com que devamos nos preocupar. Quem puder consumi-lo, que o faça.
Em termos ambientais... aí sim, há muito que ser avaliado e discutido. Privilegiar a produção de cereais ou a de carne? Resgato inicialmente um escrito de Robert Goodland que figura na destacada publicação “CAVALCANTI, C. (org.) (2002) Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável e Políticas Públicas, 4ª.ed., São Paulo, Cortez Edit. e Fundação Joaquim Nabuco, 436p.”, sob título: Sustentabilidade Ambiental: Comer Melhor e Matar Menos (expressão esta que tomei emprestada para título deste ensaio). Nessa contribuição R. Goodland discorre sobre valores nutricionais de cereais e carnes, política alimentar, aspectos ecológicos e filosóficos em geral, assim como sobre valores relacionados à saúde humana e crença religiosa. Em termos de sustentabilidade ambiental vejamos alguns pontos de destaque dessa publicação, principalmente na comparação entre produção de cereais e de carne animal: 1) o gado de corte durante a engorda consome sete quilos de cereal para produzir um único quilograma de peso em pé, ou produto em pé em sua expressão ecológica (comentário meu sob o aspecto ecológico: sugiro aos leitores que consultem, num livro de ecologia ou no meu Glossário de Ecologia e Ciências Ambientais, o gráfico de ODUM representativo da transferência de energia através da cadeia alimentar e vejam quanto de energia se evitaria perder “se fôssemos mais herbívoros”); 2) o porco consome quase quatro quilos de grãos para cada quilo de peso em pé; 3) frango e peixe (mais eficientes na conversão) consomem dois quilos de grãos para cada quilo de peso em pé; 4) produção de queijo: 3 quilos de grãos para cada quilo desse produto; e produção de ovos: 2,6 quilos de cereais por quilo desse produto. Segundo avaliação de Lester Brown, pesquisador em sustentabilidade ambiental, os países que lideram essa “transformação de cereais em carne” são Estados Unidos e China. Robert Goodland então pergunta: “Se os indivíduos mais prósperos do mundo aceitassem simplificar sua alimentação (por razões de saúde ou ética ou economia, ou religião...) liberariam os cereais assim poupados e os distribuiriam para prevenir a fome e a desnutrição onde e quando necessário”?
Em termos econômicos, apenas alguns comentários de quem passa “marginalmente” pelo conhecimento dessa problemática. Os pobres normalmente gastam 70% e às vezes mais, de sua renda com alimento. Os ricos, cerca de 20%. Partindo do princípio de que um hectare de terra com plantio de grãos possa produzir de duas a 10 vezes mais do que um hectare destinado à produção de carne bovina e que um hectare de legumes pode produzir de 10 a 20 vezes mais proteínas do que o mesmo hectare voltado para a carne de boi (segundo o artigo de R. Goodland acima citado), antes de decidirmos por uma política pró-gado bovino, precisamos observar se no local objeto da ocupação não haveria maior retorno se optássemos por produção de cereais. Priorizar tal decisão exclusivamente por razões econômicas (carne bovina é “artigo para exportação”), ou por razões de preferência alimentar, deixando de lado outras questões, como conservação/preservação ambiental e sócio-economia ambiental, se contrapõe ao que hoje se entende por desenvolvimento sustentável.
Em termos ambientais há muito a se considerar. Obviamente há de se levar em conta a região ou microrregião onde se pretenda estabelecer a atividade pecuarista, devendo-se observar principalmente o clima e o solo. Se tal local for sujeito a variações climáticas extremas, como seca freqüente por exemplo, devemos nos lembrar que pastagem demanda 10 vezes mais água de irrigação para produzir um quilo de carne do que plantio de soja para produzir um quilo de grãos. Se no local a ser explorado a água não é problema, a emissão de gás metano (forte característica dos ruminantes) não deveria ser objeto de preocupações ecológicas por “ecologistas e ambientalistas” (por favor, não me incluam nessa classificação; eu sou ECÓLOGO). Por que na atmosfera há muito mais metano emanado de zonas pantanosas, brejos, arrozais e muitos mais outros gases do aquecimento global emanados de veículos automotores. Vejamos ainda os seguintes números: o total de metano gerado anualmente nas Usinas Hidroelétricas do norte, Tucuruí, Samuel, Curuá-Una e Balbina, equivale ao total anual emitido na cidade de Sâo Paulo (obs.: uma tonelada de metano é igual a 25 toneladas de dióxido de carbono como potencial do aquecimento global).
Com respeito à expansão de novas fronteiras da pecuária bovina, no nosso caso a Amazônia, no documento “O Reino do Gado: uma Nova Fase na Pecuarização da Amazônia Brasileira” (documento de Amigos da Terra/2008, divulgação em PDF no site http://www.amazonia.org.br/) alguns aspectos merecem ser destacados e sobre eles devemos refletir cuidadosamente: 1) em 2007 ocorreram mais de 10 milhões de abates bovinos, tendo o rebanho da Amazônia representado 36% do rebanho nacional (Brasil maior produtor mundial de carne bovina); 2) modelo predominante atual: a venda da madeira financiando a derrubada da floresta, a queima e a introdução de pastagem; 3) baixo custo da terra: muitas terras públicas passíveis de serem apropriadas ilícita e impunemente; 4) agravantes: carência de políticas públicas na área fundiária (com impunidade na apropriação indevida) e crédito sem restrição para atividades ilegais; 5) baixo investimento na recuperação de pastagens: dados da Embrapa revelam que desde os anos de 1990 o custo de recuperação de pastagens pode ser quatro vezes maior do que o da utilização de novas terras; 6) baixa capacidade de suporte ou lotação média: 1,4 cabeça por hectare; 7) falta de zoneamento agro-ecológico e falta de incentivo fiscal para converter sistemas de produção extensivos em intensivos sustentáveis (com adequação à legislação, tecnologias, gerenciamento...); 8) predominância de grandes grupos financeiros, sendo os pequenos produtores esquecidos. Alguns pontos positivos que vêm ocorrendo devem ser observados e incentivados: a) geração de tecnologias de intensificação e manejo de pastagens apropriadas; b) condições boas para a raça Zebu; c) adoção de pecuária com gestão empresarial.
Alguns outros fatos negativos têm ocorrido nos Estados de MT, PA, AC e RO, segundo o citado documento de Amigos da Terra/2008, como por exemplo: (i) maioria dos 200 frigoríficos operando ilegalmente; (ii) 73% dos frigoríficos adquirindo carne de fazendas com trabalho escravo (2006-07). Esses fatos contribuíram para as medidas recentes de certificação que o governo federal intenciona implantar para controle da produção de carne na Amazônia e que vem gerando protestos de pecuaristas.
Aqui, como conclusão, é bom observarmos o que revelou uma pesquisa do DataFolha, em abril/2009: “Brasileiro aceita pagar mais para produto com certificação socioambiental” (81% dos entrevistados disseram que dariam preferência, mesmo com preço um pouco superior, a produtos com certificação florestal) [ver pesquisa completa em www.amazonia.org.br/arquivos/311527.pdf]. É impressionante, segundo o DataFolha, que em 2006 o conhecimento do brasileiro sobre o “FSC – Forest Stewardship Council” era nulo; e que agora, um quinto da população entrevistada (com pequenas variações regionais) já tenha conhecimento do que se trata. E você, leitor(a) se ainda não sabe o que esse certificado significa, é só ler o que extraí do Glossário de Ecologia e Ciências Ambientais:
CERTIFICAÇÃO DE MATERIAL DE FLORESTAS
Documento ou certificado concedido aos explotadores de recursos florestais. O “FSC – Forest Stewardship Council” (literalmente, em inglês, Conselho de Procuradoria (ou Intendência) de Florestas) é a primeira instituição credenciadora de certificadores na área florestal. É uma entidade não-governamental (sem fins lucrativos) internacional, sediada em Oaxaca, México, tendo sido fundada em 1993, com o objetivo de promover a conservação cuidando do credenciamento e monitoramento de certificadores de florestas que estejam submetidas a práticas de bom manejo. O FSC recebe apoio do setor ambientalista e pouco a pouco, também do setor empresarial e de governos de diferentes países.

Acredito que muitas discussões virão sobre esta problemática: “comer ou não comer carne não é só uma questão de princípios; e se for motivo de preocupação sócio-econômica é bom lembrar que todo desenvolvimento sustentável somente pode ser efetivado na seguinte ordem: desenvolvimento sustentável ecológico, econômico e social”. Minha opção, como ecólogo e cidadão brasileiro: a carne bovina não faz parte da minha alimentação.

4 de jul de 2009

CARNEIRO NA ESCÓCIA DIMINUINDO DE TAMANHO COMO INDICADOR ECOLÓGICO DE AQUECIMENTO GLOBAL




Newscientist, 02 de julho de 2009
Esta divulgação da revista semanal inglesa Newscientist informa que ao longo de 20 anos os invernos mais curtos causados pela mudança climática são responsabilizados pelo encolhimento (redução de tamanho) de carneiro Soay (raça primitiva resultante de cruzamento com o carneiro de raça doméstica; ver foto ao lado ). Esta espécie vem sendo estudada desde 1955, na ilha Hirta, no arquipélago de Santa Kilda, oeste da Escócia.
Pesquisadores do Imperial College (Londres), modificando a equação de Price (referente a uma descrição matemática da evolução e seleção natural) exploraram os efeitos de mudança ambiental e seleção natural procurando observar como tais mudanças na seleção natural modificam uma população de uma geração para outra.
Nesse estudo os pesquisadores modificaram a equação de Price de maneira que ela reproduzisse os efeitos de variáveis ambientais, como por exemplo o tempo (estado atmosférico) e as estações do ano, na tentativa de observar como tais variáveis têm mudado de ano para ano. Modificaram-na também de maneira que ela pudesse separar a população em diferentes grupos de idade e que pudesse descrever as mudanças neles ocorridas, separadamente. E isso lhes permitiu descobrir quais fatores têm afetado o tamanho dos carneiros. A tendência num processo de seleção natural é de que os carneiros gerem descendentes maiores, partindo do princípio de que os menores não consigam sobreviver aos invernos rigorosos. Mas, segundo os pesquisadores, isso não tem ocorrido devido ao que eles chamaram de “efeito da mãe jovem”, ou seja, uma tendência para que no primeiro cruzamento a mãe gere um filhote menor do que ela própria era quando nasceu.
Além disso, o modelo dos pesquisadores revelou que um dos fatores de maior influência no tamanho foi o aumento gradual do aquecimento climático causado pelas mudanças das correntes marinhas no fenômeno da Oscilação do Atlântico Norte, que têm produzido invernos mais curtos na ilha. E com isso, os carneiros menores se beneficiam, sobrevivendo com facilidade nos invernos menos rigorosos.

2 de jul de 2009

BEBÊS CHINESAS VENDIDAS PARA ADOÇÃO (EM CONTINUAÇÃO À POSTAGEM ANTERIOR)





BILINGÜE


BBC NEWS, 02 de julho de 2009



Esta nota, divulgada no site da BBC (Londres) mostra a situação caótica-desumana "a que teremos nos acostumar" ao longo deste tão falado século XXI, o século das conquistas tecnológicas e transformações.

INGLÊS: Rural couples are allowed two children under China's family planning laws
Dozens of baby girls in southern China have reportedly been taken from parents who broke family-planning laws, and then sold for adoption overseas.
PORTUGUÊS: Casais de zonas rurais são permitidos ter, sob as leis de planejamento familiar na China, dois filhos. Dezenas de bebês meninas, no sul da China têm sido, segundo se noticia, tomadas dos pais que quebraram as leis de planejamento familiar e foram vendidas para adoção no exterior.
INGL.: An investigation by the state-owned Southern Metropolis News found that about 80 girls in one county had been sold for $3,000 (£1,800).
PORT.: Investigação do "Soutrhern Metropolis News" [jornal] de propriedade do Estado, descobriu que cerca de 80 meninas em um condado foram vendidas por U$3.000,00 (ou 1.800 libras).
INGL.: The babies were taken when the parents could not pay the steep fines imposed for having too many children.
PORT.: Os bebês foram tomados porque os pais não puderam pagar a multa exagerada imposta por terem muitos filhos.
INGL.: Local officials may have forged papers to complete the deals, the report said.
PORT.: Autoridades locais podem ter forjado documentos para completar as negociações, afirma o relatório.

INGL.:Unpopular policy
PORT.: Política impopular
INGL.: Parents in rural areas are allowed two children, unlike urban dwellers who are allowed one. But if they have more than that, they face a fine of about $3,000 -several times many farmers' annual income.
PORT.: Os pais das zonas rurais são permitidos ter dois filhos, diferentemente dos habitantes das zonas urbanas a quem são permitidos apenas um filho. Mas se eles têm mais do que isso, têm que enfrentar uma penalidade de cerca de U$3.000,00 - valor muitas vezes superior à renda anual de muitos fazendeiros.
INGL.: The policy is deeply unpopular among rural residents, says the BBC's Quentin Somerville in Beijing.
PORT.: Essa política é profundamente impopular entre os residentes das zonas rurais, afirma Quentin Somerville da BBC, em Beijing (Pequim).
INGL.: Nearly 80 baby girls in a county in Guizhou province, in the south of the country, were confiscated from their families when their parents could not or would not pay the fine, Southern Metropolis News said.
PORT.: Aproximadamente 80 bebês meninas num condado na província de Guizhou, no sul do país, foram confiscadas de suas famílias uma vez que seus pais não podiam ou não pagariam a multa, afirmou o "Southern Metropolis News".
INGL.: The girls were taken into orphanages and then adopted by couples from the United States and a number of European countries. The adoption fee was split between the orphanages and local officials, the newspaper said.
PORT.: As meninas foram levadas para orfanatos e daí foram adotadas por casais dos Estados Unidos e vários paísis europeus. A taxa de adoção foi repartida entre os orfanatos e autoridades locais, afirmou o jornal.
INGL.: Child trafficking is widespread. A tightening of adoption rules for foreigners in 2006 has proved ineffective in the face of local corruption.
PORT.: O tráfico de criança está se disseminando. Um aperto nas regras de adoção para estrangeiros em 2006 provou ser ineficiente face à corrupção local.

17 de mai de 2009

SUPERPOPULAÇÃO: COMPROMETE A SUSTENTABILIDADE???


"Optimum Population Trust"
"Towards environmentally sustainable populations"
6.836.207.421
6.836.278.034

Os números que vemos acima foram registrados a partir do “tic-tac” do Relógio da População Mundial: o primeiro foi registrado às 10 horas e oito minutos, na manhã deste domingo, 17 de maio de 2009; e o segundo, ainda no domingo, mas às 17 horas e 26 minutos. Esta contagem refere-se ao crescimento da população humana no nosso planeta, sendo mostrada em tempo real no site http://www.optimumpopulation.org/. Este é mantido pela “Optimum Population Trust” “towards environmentally sustainable populations”, que significa literalmente, Fundação da População Ótima, direcionada a populações ambientalmente sustentáveis. A velocidade com que os números aumentam impressiona tanto quanto a velocidade com que nos deparamos diariamente com os problemas mundiais. Acrescentem-se aos problemas da rotina diária mundial da luta pela sobrevivência, os impactos ambientais (os “acidentes de percurso”) que nos acostumamos a chamar de tragédias: secas, tempestades de neve, chuvas torrenciais, enchentes, terremotos, incêndios em florestas, furacões etc. E no meio dos eventos geoclimáticos, o ser humano que “quando escapa com vida de tais tragédias”, corre o risco cada vez maior de morrer de fome ou como vítima da assistência precária de governos para amenizar seu sofrimento. Pelo menos é isso que acontece com a maioria, pobre. Fatos estes aos quais também nos acostumamos. Isto sem falar da má qualidade de vida, que a cada dia atinge parcelas maiores da população mundial.
Nossos recursos naturais (a fonte de vida do planeta) estão sendo consumidos em taxas que vêm se tornando difícil serem mantidas nos “níveis sustentáveis”. O consumo dos recursos aumenta nas classes sociais de maior poder aquisitivo. A parte melhor desses recursos: para os ricos. A sobra: para pobres e miseráveis. A má distribuição de renda e o aumento no número de pessoas ditas pobres (se não miseráveis), que consomem apenas um mínimo, formam o quadro geral da dificuldade em se manter a sustentabilidade com boa qualidade de vida (é bom não esquecermos!). Um paradoxo: estatísticas mundiais revelam que as taxas de natalidade vêm caindo espontaneamente. Estima-se que dois terços dos casais nos países em desenvolvimento utilizam controle de natalidade. Bangladesh e Irã são exemplos de que se for dada oportunidade às pessoas, estas terão menos filhos. Ações coercivas de controle da natalidade, como a praticada na China, em que as pessoas são pagas para não terem filhos, vêm sendo abandonadas devido a resultados duvidosos e por gerarem conseqüências trágicas (um exemplo: bebês do sexo feminino abandonados por representarem “prejuízos como força de trabalho”).
Segundo a especialista Debora Mackenzie, consultora da revista inglesa New Scientist, na Ásia e América Latina cada mulher gera, em média, 2,5 bebês. A maioria das mulheres afirma que gostaria de ter menos filhos. Um em cada cinco nascimentos e 36 milhões de abortos nos países em desenvolvimento não aconteceriam se às mulheres fosse dada a chance para que tal não acontecesse.
A ONU prevê que no ano 2050 a população mundial atingirá 9,2 bilhões. Mesmo que cada mulher venha a gerar a partir de agora, apenas duas crianças, a população mundial será de 8,5 bilhões. Um excesso às condições de sustentabilidade com boa qualidade de vida. Em alguns países, como na África, calamidades como a AIDS têm levado famílias a aumentarem sua prole, uma vez que mais filhos significam compensação pelas que morreram e maior ajuda na sobrevivência no campo. SE as meninas de países em desenvolvimento tivessem maior e melhor acesso à educação, é bem possível que os excessos de nascimentos pudessem ser controlados; ou seja, meninas teriam a oportunidade de entender melhor seu papel na sociedade, igualando-se à força de trabalho masculina, não gerando filhos precocemente (no início da puberdade, como muito acontece hoje) e gerando menos filhos. Quisera Deus que tal acontecesse na África, Ásia e América Latina!!!
O órgão das Nações Unidas “UNFPA” (Fundo das Nações Unidas para a População) prevê que alimento e água são temas críticos para os países em desenvolvimento, devido principalmente à pobreza, instabilidade política, e ineficiência econômica e desigualdade social. Especialmente para os países subsaarianos. A “FAO – Food and Agricultural Organization” (organização para alimentos, também ligada à ONU) prevê que até 2020 a produção de alimentos tenha que duplicar para atender à crescente população mundial.
Educação, planejamento familiar, além de distribuição mais justa da renda, em suma, justiça social, são pontos essenciais para se começar a pensar em controle populacional humano. Enquanto isso não acontece, a observância aos outros aspectos fundamentais da sustentabilidade, como a capacidade suporte dos ecossistemas, deve ser praticada. Antes que seja tarde!

13 de mai de 2009

AQUECIMENTO GLOBAL E SAÚDE

Em sua edição eletrônica de março/2009, a revista norte-americana “Scientific American Earth 3.0” (assim denominada), divulga artigo da Dra. Katherine Shea, Prof. Adjunto de saúde materna e da criança, da Universidade da Carolina do Norte, sob o título “Global Warming and your Health” (Aquecimento Global e sua Saúde). Este assunto, segundo a própria autora, é “uma ladainha dos impactos diretos associados à mudança global”. Esta autora trata sobre a incidência de asma e alergias, ambas ligadas a problemas respiratórios. Associar aquecimento global a doenças torna-se necessário considerar os seguintes ângulos de abordagem: (i) prevalência de doenças como essas estudadas por SHEA, asma e alergias respiratórias, e (ii) disseminação de doenças infecciosas, como foi abordado por “LAFFERTY, K.D. (2009) The ecology of climate change and infectious diseases. Ecology, 90 (4): 888–900”.
Comecemos por este último aspecto, abordado por LAFFERTY (2009), que analisa com significativo número de citações bibliográficas, as relações entre clima e ocorrência e dispersão de doenças infecciosas. Ele considera que enquanto as projeções iniciais sugerem aumentos dramáticos futuros na faixa geográfica das doenças infecciosas, modelos recentes prevêem mudanças nas faixas de distribuição de doenças com pouco aumento na área de distribuição. E uma vez que muitos fatores podem atuar sobre doenças infecciosas, alguns poderão obscurecer os efeitos advindos do clima. Mas é importante observar a afirmação de LAFFERTY, de que a alta diversidade de doenças infecciosas nos trópicos poderia ser resultante da alta diversidade de seus vetores. E ainda: a inabilidade de doenças tropicais de seres humanos em disseminar, a partir dos trópicos para as regiões temperadas pode se dever à alta proporção de doenças tropicais que têm vetores específicos (80% tropicais versus 13% temperados) e/ou reservatórios animais silvestres (80% tropicais versus 20% temperados). Muitos trabalhos são citados por LAFFERTY (2009) reportando sobre aumento de temperatura beneficiando os vetores de doenças, como por exemplo: experimento com a esquistossomose, causada pelo parasita trematódeo, mostrou que as cercarias são sensíveis ao aumento de temperatura (conforme relatado por “POULIN, R. (2006) Global warming and temperature-mediated increases in cercarial emergence in trematode parasites. Parasitology, 132: 143–151”).
Os insetos vetores de doenças, como os mosquitos da malária e das febres amarela e dengue, são bastante sensíveis às condições meteorológicas (conforme relatado por “BRAASCH, G. (2007) Earth Under Fire: How Global Warming is Changing the World. Berkeley, University of California Press, 267p.” e já comentado numa das postagens mais antigas neste blog de ecologia). Apenas um exemplo mais recente: uma ressurgência da dengue na América Latina atingiu Buenos Aires. Em 09/04/2009 foram confirmados mais de 150 casos nessa capital (segundo divulgação “online” de NATURE (2009)).
E agora, alguns trechos do artigo objeto desta postagem. Vejamos o que afirma a Dra. SHEA sobre a asma e alergias associadas ao aquecimento global: (a) as pessoas mais vulneráveis a esses dois males são os idosos, as crianças e os enfermos; (b) esses males são epidêmicos nos países desenvolvidos, cujo número de afetados é crescente; (c) somente nos EUA pelo menos 50 milhões de pessoas sofrem de alergias, a um custo anual de U$18 bilhões ao sistema de saúde; (d) a asma afeta um em cada 14 americanos adultos e um em 10 crianças, sendo neste caso a principal responsável pelas ausências escolares; (e) quanto mais expostas as pessoas estão ao ar poluído e grãos de polens, piores são os sintomas, aumentando a probabilidade de desenvolverem processos alérgicos.
Observa ainda a Dra. SHEA: a mudança climática tem se mostrado (por diversos pesquisadores) como causadora do aumento nas concentrações de poluentes atmosféricos que desencadeiam essas doenças, principalmente o ozônio e os grãos de polens. O ozônio é o componente primário do “smog” ("smoke" + "fog" ou seja, fumaça + nevoeiro, comuns em cidades como Los Angeles (EUA) e Londres (Inglaterra). A exposição ao ozônio durante a infância pode retardar o crescimento e desenvolvimento pulmonar e contribuir para novo aparecimento de asma, que pode surgir em qualquer idade. A maioria dos precursores do ozônio provém da queima de petróleo e carvão mineral, surgindo da ação dos raios solares atuando sobre esses poluentes.
Sobre as ações dos grãos de polens a Dra. SHEA relata que a “febre do feno” potencializa ataques de asma e que há vários estudos apontando que o aumento global de temperatura provoca antecipação e alongamento da estação de produção de polens. E ainda: há certas plantas, como a erva-de-santiago ou tasneira (“ragweed”) que produz substâncias alergênicas em quantidades mais elevadas, agravando-se a asma em pessoas mais sensíveis, estando no ar concentrações mais elevadas de dióxido de carbono (um dos gases mais eficientes do aquecimento global). Conclui ela: não há dúvida de que o aquecimento global promove sofrimento respiratório. Pessoas em risco devem evitar sair de casa e evitar esforços físicos nos dias críticos, quando há informações sobre ar poluído e “infestado” com grãos de polens. Orientação às pessoas sobre como entender os índices divulgados sobre poluição e agentes da febre do feno, e ainda, e não menos importante sobre atendimento e medicação adequada é fundamental.
Não há exagero em lembrar que a onda de calor que atingiu a Europa tenha coincidido com a morte de umas 52 mil pessoas no verão de 2003; na França, mais de 10 mil, onde em Paris a temperatura alcançou 40 graus Celsius; e quase outras tantas na Itália.
Sabemos que o aquecimento global tem se mostrado como fator de preocupação maior no hemisfério norte, principalmente nas grandes latitudes. E nós que vivemos em latitudes mais baixas, mais próximo do equador e numa região naturalmente mais quente, estariamos imunes a efeitos desse tipo, com o aquecimento global??? Precisamos realizar estudos, antes de responder!

26 de abr de 2009

ALGUMAS PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE A “GRIPE SUÍNA”

[New Scientist, 26 de abril de 2009]
Pergunta: Posso comer carne de porco?
Resposta: De início é bom esclarecer que a denominação “gripe suína” NÃO quer dizer que seja um vírus que infecta suínos, mas sim pela semelhança de uma de suas proteínas com as proteínas de vírus que geralmente infecta esses animais. Tal vírus ainda não foi detectado em porco, mas sim em seres humanos.
P.: Quem deve se preocupar?
R.: Há motivos para preocupações ao se observar que dentre as 81 pessoas afetadas, com várias mortes (até 26/abril/2009) com essa gripe no México, a maioria era jovens adultos. Portanto, seu potencial mortal pode ser grande. Resta saber quão severo é seu potencial de disseminação.
P.: Poderá se disseminar para outros países, podendo chegar ao Brasil?
R.: As viagens internacionais, hoje, são muito comuns e freqüentes. Há informações de que alguns países já estão utilizando câmeras de raios infravermelhos, nos aeroportos, para detectar pessoas com febre e que estejam vindo de locais conhecidamente afetados (do México e Estados Unidos).
P.: E qual é seu potencial de disseminação?
R.: Como as pessoas infectadas nos Estados Unidos não entraram em contato com porcos, nem comeram carne de porco, e nem tiveram contato umas com as outras, sabe-se que esse vírus é transmitido entre seres humanos, suspeitando-se que foram necessárias algumas semanas para que isso acontecesse. Investiga-se agora que tipo de contato essas pessoas tiveram com outras possivelmente infectadas; e daí podermos ficar sabendo sobre quão facilmente (ou não) o vírus se dissemina.
P.: Há medicamento e vacina contra a gripe suína?
R.: Não há vacina disponível. A gripe tem se mostrado suscetível ao medicamento antiviral “Tamiflu”; sem se saber por quanto tempo permanecerá assim ou se desenvolverá resistência.
P.: Qual seria então o motivo para tanta preocupação? Há risco de pandemia?
R.: É possível. Principalmente porque é mais um “novo vírus”. E como vírus de gripe está sempre “evoluindo”, ou seja, a maioria sofre modificações estruturais nas proteínas de sua superfície (do envelope), cada novo vírus dispõe de mecanismos para “enganar” as defesas de nosso sistema imunológico. Conhecem-se hoje 16 diferentes famílias de vírus com diferentes proteínas de superfície; além do fato de que os vírus trocam entre si genes. Um exemplo de possível resultado: proteínas de superfície de vírus de porco ou de vírus da gripe aviária poderão circular entre pessoas. Daí, uma pandemia poderia ocorrer. O vírus da gripe suína é da família de vírus H1N1; a mesma família de vírus da pandemia de 1918, a gripe espanhola que matou cerca de 50 milhões de pessoas.
Observações: 1) a gripe aviária, vírus da família H5N1, segundo a OMS – Organização Mundial de Saúde, matou 257 pessoas em 2003, das 421 infectadas (de 15 países); 2) gripes estacionais (ou sazonais) matam a cada ano no mundo, entre 250 mil e 500 mil pessoas; e a cada poucas décadas surge uma nova linhagem de gripe que pode ser pandêmica.

9 de abr de 2009

NA ANTÁRTICA A PERDA E O GANHO DE GELO COMPROVAM AQUECIMENTO GLOBAL














PERDA DE GELO. A notícia já percorre o mundo, via “cyberspace”: uma ponte de gelo (Wilkins) ligando duas ilhas na Antártica, Charcot e Latady, rompeu-se. As fotos acima (imagens do “Moderate Resolution Imaging Spectroradiometer – MODIS”, instalado no satélite Aqua, da NASA) mostram o rompimento. Na imagem da esquerda (de 31/março/2009) vê-se a ponte ainda intacta, apresentando a aparência “lisa”, sem quebras. Poucos dias depois (em 06/abril/2009) foi obtida outra imagem, a foto da direita, em que a ponte aparece despedaçando-se. Desde 2008 a “European Space Agency” vem acompanhando a existência e quebra da ponte de Wilkins. A ponte Wilkins é a décima, das maiores plataformas, a sofrer colapso nos anos recentes. Uma prova de que há elevação de temperatura perturbando o frágil equilíbrio da criosfera do nosso planeta.
Embora o colapso dessa ponte de 13 mil km quadrados não exerça ação direta no aumento do nível do oceano, sua desintegração indiretamente reduzirá a estabilidade das geleiras que “a alimentam”. Christian Lambrechts, do departamento de advertências e estudos da “UNEP – United Nations Environment Programme” (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) afirma que tal colapso exporá nova área da superfície do oceano, que assim absorverá mais radiação solar, contribuindo para o contínuo e acelerado aquecimento da região.
A lição maior aprendida com esse fato é de que as modificações na Antártica estão ocorrendo mais rápido do que se pensava. No início da década de 1990 estimava-se que em 30 anos ocorreriam fenômenos como esse. E ainda, segundo a pesquisadora Angelika Humbert, do Instituto de Geofísica da Universidade Münster, Alemanha, isso serve como advertência de que as plataformas de gelo da Antártica são potencialmente instáveis em escalas curtas de tempo.
GANHO DE GELO. A revista inglesa “New Scientist” já divulgara em 01/junho/2002, em artigo intitulado: “Está mais quente mas, há mais gelo”, que apesar das notícias sobre colapso de plataformas de gelo, há acréscimos de uns 200 mil quilômetros de gelo na Antártica. Mas os céticos do aquecimento global talvez concordem (ou não) com a seguinte possível explicação: um aumento da precipitação de neve vem ocorrendo como resultante de maior umidade proveniente da evaporação da água devido ao aumento da temperatura. Com isso, análises de dados obtidos nos últimos 20 anos de observação das imagens de satélite contradizem as previsões de que metade do mar de gelo da Antártica desaparecerá no século vindouro. Ou seja, as precipitações extras de neve superariam o derretimento das geleiras pelo aumento da temperatura atmosférica (do aquecimento global). Estima-se que o mar de Ross tenha mais 13% de gelo do que em 1979.
Mas há observações de que tal crescimento em geleiras é localizado; e que em algumas áreas o derretimento supera o acréscimo de geleiras. Algumas geleiras, como a de Larsen, tem ciclos de acréscimo e derretimento.
Mais geleiras mais água doce no oceano e daí... com esse aumento o oceano torna-se mais estável, reduzindo-se a transferência de calor proveniente de sua zona mais profunda. Isso facilita o congelamento da água, que assim refletirá mais a radiação solar incidente, contribuindo para reduzir (vagarosamente) o efeito do aquecimento global. Essa situação na Antártica está em contraste gritante com a região Ártica, onde já vêm sendo registradas perdas de 40% da camada de gelo de verão nos últimos 50 anos.

7 de abr de 2009

“OVOS DE CHOCOLATE” SOB CRESCENTE AMEAÇA DA VASSOURA DE BRUXA (NO BRASIL) E DE VIRUS (NA ÁFRICA) [ou RISCOS DA MONOCULTURA]







Newscientist, 08/abril/2009
Chegou a época novamente, dos ovos de chocolate e as vendas desse símbolo, pagão e cristão do renascimento, estão mais fortes do que nunca. Mas a “caçada” por ovos de páscoa pode realmente acontecer no próximo ano, porque os cacaueiros estarão em maus lençóis.
O vírus do cancro caulinar (em inglês “cocoa swollen shoot vírus – CSSV”) poderá matar as árvores e ameaçar derrubar a produção da primavera deste ano, em um terço, num dos maiores produtores mundiais de cacau: a Costa do Marfim (oeste da África, região responsável por 70% da produção mundial). Enquanto isso, o fungo “vassoura de bruxa” (Crinipellis perniciosa) faz o mesmo no Brasil. Pesquisadores do “CRIG – Cocoa Research Institute of Ghana” ao tempo em que se apressam em seqüenciar o genoma do cacaueiro para encontrar genes que possam resistir ao “CSSV”, encontraram variedades com resistência parcial ao vírus. Ray Schnell e colegas, de laboratório do “US Department of Agriculture” em Miami, Florida, tentam apressar o processo mapeando o gene (e afirmam que isso seria bem mais fácil se o genoma do cacaueiro já tivesse sido mapeado). E assim, se tentará obter por cruzamento, linhagens de cacaueiros que possam resistir ao vírus. Enquanto isso, só resta aos fazendeiros da região (desprovidos de recursos), queimar os cacaueiros contaminados e expandir o cultivo para novas áreas.
É praticamente impossível evitar que os cacaueiros se contaminem porque o vírus, endêmico, provém de árvores nativas (algumas delas importantes para sombrear os cacaueiros), de onde surgem e se disseminam através de um vetor, um inseto, a cochonilha (Maconellicoccus sp) [conhecido.em inglês como “mealy bug”, literalmente, bicho farináceo].
Segundo o pesquisador inglês Paul Hadley, da Universidade de Reading, um fator que promove a disseminação dessa praga é o fato de que o cacaueiro (originário da úmida Amazônia) vem sendo cultivado em extensos plantios (monocultura) em regiões secas da África, onde as árvores sob estresse hídrico são menos aptas a resistir à praga. A carência de recursos para uso de fertilizantes agrava a situação.
Embora novos estoques genéticos de cacaueiros da América do Sul estejam sendo selecionados para a África, medidas de precaução, como uma quarentena de dois anos e mais hum ano experimental, retardarão em três anos para que se inicie a contornar tal problema. Se obtido resultado positivo desse procedimento, será produzido um “kit” que poderá ser usado pelos fazendeiros africanos para selecionar plantas resistentes ao “CSSV”. Já se usa no centro de pesquisas de Gana (no “CRIG”), um “kit” semelhante para combater o fungo da podridão parda (Phytophthora sp).

5 de abr de 2009

ÁGUA: O GRANDE DESAFIO DESTE MILÊNIO







[Contribuição de SANDRA LIMA - ver endereço no final do texto - fotos: rio Paraguai]

Comemoramos o “dia mundial da água” marcado pela tomada de consciência diante do quadro em que se encontram os recursos hídricos. A sensibilização geral já vem acontecendo durante décadas, mas com os cenários projetados torna-se imprescindível que cada habitante se conscientize acerca do uso e da disponibilidade real da água no mundo.
Criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) seguindo as recomendações da Eco-92, conferência realizada no Rio de Janeiro, estiveram nas pautas anuais, além dos vários estudos e discussões, temáticas como vida, saúde, escassez, saneamento, disponibilidade, ações e cuidados, questões de gênero, águas subterrâneas, entre outros.
A “Declaração Universal dos Direitos da Água” caracteriza este precioso bem ambiental como seiva do planeta, patrimônio da humanidade, direito fundamental, condição essencial de sobrevivência, bem de valor econômico e recurso insubstituível. Deve ser utilizado racionalmente com precaução e parcimônia, determinando responsabilidades para conservação e preservação em águas superficiais ou subterrâneas, tanto do indivíduo quanto dos governos.
A sobrevivência dos seres vivos traduz a necessidade de uma gestão consciente, pois atualmente a prática de uso extrapola os limites recomendados de 40 litros dia/habitante (nas regiões em que o consumo ainda é possível). Estima-se que são gastos em média 200 litros no Brasil, enquanto que dados da ONU confirmam que nos EUA a média é de 575 litros e em Moçambique 10 litros por cada pessoa. Milhões de pessoas já sofrem com a ausência desse recurso estratégico de governança e essencial à vida.
Considerando que o ciclo hidrológico continua o mesmo há milhares de anos, em contraste com previsões de que a água pode desaparecer do planeta, torna-se urgente a implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei nº 9433/97) que estabelece a gestão integrada da água em todas as suas características, destacando a formação dos Comitês de Bacias Hidrográficas como parlamento de discussão e adoção de medidas pertinentes.
A qualidade e a quantidade de água potável vêm diminuindo a cada dia e consequências como a transmissão de doenças, queda na produção de alimentos e conflitos entre nações já estão “naturalizadas” no cotidiano das pessoas. Dentre as causas, estão os problemas como enchentes, abastecimento precário, acúmulo de resíduos doméstico/industriais nos mananciais, além do desmatamento das florestas e das matas ciliares.
As águas transfronteiriças, as compartilhadas por Estados e países, como é o rio Paraguai é o tema principal de 2009. Para isso as nações devem promover as oportunidades de cooperação na gestão e garantir que gerações presentes e futuras possam compartilhar desse bem, pois não importa em qual trecho do rio vivemos, estamos todos no mesmo barco.
A região pantaneira precisa desmistificar “a pseudo abundância” dos recursos hídricos, presente nos discursos políticos e acadêmicos, já que realidades como a falta de água nos assentamentos; ausência de saneamento ambiental; falta de controle e fiscalização da geração, destinação e tratamento dos resíduos; contaminação do agronegócio e outras atividades humanas; assoreamento dos rios e extinção das nascentes contribuem para o agravamento da situação e devem ser discutidos por todos em busca de ações e soluções.
Vivenciamos o Decênio Internacional para a Ação Água (2005-2015) e a conservação e preservação é responsabilidade de todos. A população pode ajudar a diminuir esses impactos, seja evitando o desperdício ou ainda cobrando dos governos políticas de recuperação, revegetação e preservação dos mananciais e regularização do uso e ocupação do solo.
Será que realmente pensamos na falta que a água faz em nossas vidas?

Sandra Lima é Mestre em Ciências Ambientais pela Universidade do Estado de Mato Grosso. Contato: Sanlima11@hotmail.com

12 de mar de 2009

A SUSTENTABILIDADE EM CAPÍTULOS: III – BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE OS SERVIÇOS AMBIENTAIS MARINHOS



Durante séculos o mar foi objeto de desafios para o ser humano. De caminhos para as descobertas de novas terras, no desejo humano de expandir seus domínios, passando por palco de batalhas, sustento de civilizações, chegando até a servir como o maior receptor de produtos e subprodutos gerados e rejeitados pela humanidade, em toda sua existência na Terra ao longo de seus 10.000 anos de processo civilizatório. Proporcionalmente à imensidão de suas dimensões seriam os assuntos ou temas para estudos e discussões que os oceanos geram. Vejamos uma “micro-amostra” de tais assuntos.
O capital natural dos oceanos. O petróleo. Refere-se este capital aos recursos de que dispõem os oceanos e que vêm sendo utilizados pelo homem. O petróleo, por exemplo, é um desses recursos, resultante de 100 – 500 milhões de anos, em que vegetais e animais após morrerem se degradaram em grandes profundidades, tanto na terra como nos sedimentos dos oceanos. O petróleo depois de extraído e refinado torna-se um capital produzido pelo homem.
Após beneficiar-se desse gigantesco capital natural pergunta-se: que retorno o ser humano propicia à Natureza como “pagamento por tal serviço”? [veja “Serviços Ambientais” numa das postagens anteriores neste blog]. Não tenho conhecimento da existência de alguma ação positiva nesse sentido! Até os vazamentos e derrames de petróleo no mar são tratados com pouca eficiência. Problemas ambientais causados pela Petrobrás no Rio de Janeiro e no Paraná nos fazem crer que mesmo as grandes empresas, com grandes lucros financeiros, não se interessam em investir na preservação de possíveis "acidentes" e parecem preferir correr riscos em causar danos à Natureza. No site http://www.veja.com/ foi anunciado em 11/11/2008 que a Petrobrás teve, nesse ano, um lucro líquido de R$26,56 bilhões. A complacência das autoridades aliada ao descaso da sociedade, que logo esquece o que ocorreu, deixa-nos simplesmente à espera da próxima tragédia.
Potencial pesqueiro. O crescimento populacional humano, ajudado pelo desenvolvimento da tecnologia aplicada à pesca, vem aumentando o consumo de peixes, ostras, mamíferos aquáticos e outros organismos consumíveis, de maneira assustadora. Estima-se que certa espécie de peixe que venha a tornar-se alvo principal da indústria pesqueira, sofrerá baixas em seu estoque em cerca de 80% dentro de 10 a 15 anos. Pesquisadores estimam que o “fishprint” (ou pegada ecológica do peixe, poderíamos assim traduzir), que se define como a área do oceano necessária ao consumo de pescado por uma pessoa ou nação ou o mundo, vem atingindo o percentual insustentável de 157%, devido à explotação conjunta das nações.
O que o avanço tecnológico vem causando aos estoques? Eis um modelo simples do comportamento da relação PREDADOR ─ PRESA (ver figura acima). O predador é o homem; e a presa é o peixe. No quadrante superior esquerdo observa-se que ambos estão em equilíbrio (sinal positivo); segue-se a esta situação o que está representado no quadrante superior direito, em que a presa, sendo capturada em grande quantidade pelo predador, tem seu estoque reduzido; e assim o predador continua positivo tornando-se a presa negativa. Seria natural, nesta circunstância desse quadrante, que o homem se retirasse do local (seria o quadrante inferior direito, em que predador e presa têm sinal negativo). Mas a tecnologia oferece ao homem recursos tecnológicos avançados (radar, sonar, avião localizador de cardumes... e eficiente equipamento de captura) sendo ele assim capaz de localizar e capturar cardumes escondidos nas profundezas do mar ou atrás de rochas submersas etc. Na Natureza, o predador ao se retirar, propicia a recuperação da presa (quadrante inferior esquerdo). E assim a situação voltaria ao ponto inicial (quadrante superior esquerdo). Mas com o uso da tecnologia atual a presa corre risco de extinção.
Os equipamentos atuais de pesca, como a gigantesca rede de arrasto (com dimensão suficiente para “engolir 12 jatos jumbo”), variados tipos de “gaiolas” destinadas à aqüicultura em águas rasas e profundas, são alguns dos artifícios modernos que vêm contribuindo em larga escala para a redução dos estoques de peixes.
Japão e Noruega desafiam a Comissão Baleeira Internacional quando capturam anualmente (cada um desses países) 1000 baleias mink, alegando propósitos científicos. Islândia e Rússia também reivindicam tal procedimento, explicando tratar-se de nações que têm tradição cultural e econômica em utilizar esses cetáceos. No Japão, no famoso restaurante Kujiraya, em Tóquio, que serve entre 200 e 300 refeições com carne de baleia, um prato desta iguaria custa em média 1300 ienes (ou U$10.30). A 54ª. Reunião da CBI, a realizar-se em maio/2009, “no próprio Japão”, receberá mais pressões desse país para liberar a caça à baleia.
A estatística mostra que “para cada pessoa morta por tubarão, 1 milhão desses animais são mortos por pessoas”. A barbatana desse animal, usada em países asiáticos para preparar sopa e remédio para um “sem-número” de doenças, alcança no mercado o preço médio de U$10 mil (dólares americanos) (já foram detectados níveis tóxicos de mercúrio em barbatanas de tubarão). Há mais de 400 milhões de anos que esse animal existe. A redução do estoque de tubarões vem causando aumento na população de raias (arraias), das quais eles se alimentam.

10 de mar de 2009

A SUSTENTABILIDADE EM CAPÍTULOS: II – ECOSSISTEMAS MARINHOS: POUCO ESTUDADOS E MAL COMPREENDIDOS











Mar aberto, fundo do oceano e zona costeira, constituem-se nas três grandes zonas de ¾ da superfície do nosso planeta. Estima-se que gerem produtos e serviços superiores a U$12 trilhões (dólares americanos) por ano. Uma cifra aproximadamente igual ao PIB dos Estados Unidos. E sobre a maioria dos ecossistemas que fazem parte do sistema marinho, continuamos tendo uma visão limitada, se não bastante distorcida. Tais ecossistemas são reservatórios de imensurável biodiversidade; e conhecê-los com profundidade requereria recursos humanos e tecnológicos de que ainda estamos longe de dispor.
A elevada produtividade da zona costeira. Do ponto em que as altas marés atingem nas costas dos continentes e ilhas até o declive suave da plataforma continental marinha, situa-se a zona costeira; que embora seja apenas 10% da área oceânica mundial contém 90% de todas as espécies marinhas, sendo o centro da produção pesqueira comercial. Seus principais ecossistemas são: estuários, com “salt marshes” (brejos salinos) nas regiões temperadas e manguezais nos trópicos; recifes de corais; e lagunas costeiras e brejos flúvio-marinhos. A maioria é detentora de alta produtividade primária líquida. Vejamos alguns destaques desses ecossistemas.
Os estuários. Nos locais onde os rios despejam suas águas no mar, formam-se os estuários. Caracterizam-se os estuários por grande diversidade de habitats, concentrando altos valores de entrada de nutrientes (viabilizada pela convergência de fluxos de águas fluviais, correntes marinhas, lixiviação de solos circunvizinhos os mais diversos), ventos, precipitação pluvial abundante, além de intensa radiação solar penetrando facilmente nas suas águas rasas... todos esses fatores possibilitando elevada riqueza de biodiversidade. Tais ambientes propiciam condições favoráveis à reprodução de várias espécies que vivem sua fase adulta no mar. As figuras acima ilustram sua grande complexidade, em termos de habitats e biodiversidade [esquemas reproduzidos de divulgação do Instituto de Biociências da USP].
Dezenas de espécies de algas marinhas, rica concentração de espécies do fitoplâncton (algas microscópicas) e do zooplâncton (animais microscópicos) formam a base da cadeia alimentar e variados tipos de teia alimentar que tornam os estuários um ecossistema de elevada produtividade ecológica. Um exemplo: nos manguezais do rio Paraíba, principalmente no município de Várzea Nova (na “grande João Pessoa”), a produção de carne de caranguejo alcança cerca de 600 kg por hectare por ano.
Além da produção de alimentos, os manguezais nos estuários provêem importantes serviços ambientais (ecológicos e econômicos). Filtram os poluentes provenientes da lixiviação ocorrida nas margens dos rios (agrotóxicos, fertilizantes) e resíduos de despejos industriais e de águas residuárias em geral. Atuam também como zonas de amortecimento de impactos causados por enxurradas, vendavais, furacões, picos de marés muito elevadas...; e têm também, historicamente, servido como fornecedores de lenha para vários usos.
Estimativa da FAO (“Food and Agricultural Organization”), da ONU, revela que de 1980 a 2005 nosso planeta perdeu pelo menos 1/5 dos manguezais, principalmente pelas ações antrópicas.
Um estudo de caso de degradação de estuários: Chesapeake Bay, nos E.U.A. Vimos no capítulo anterior (da série “A Sustentabilidade em Capítulos”, neste blog) que o quarto princípio científico da sustentabilidade é o CONTROLE POPULACIONAL. A população humana vivendo nas proximidades dessa baía (formada a sudoeste de Washington, D.C., na costa atlântica entre os estados de Delaware e Maryland) foi dado em 1940 como sendo de 3,7 milhões de pessoas; e em 2007 atingiu 16,6 milhões. O estuário recebe água residuária de uma bacia de drenagem composta por 9 rios e 141 riachos e córregos provenientes de seis Estados americanos. São comuns ali ocorrências de “algal bloom” (explosões, de crescimento, de populações de algas) devido às altas concentrações de fosfato e nitrato nas suas águas poluídas. A produção de ostras, caranguejos e peixes caiu muito desde os anos de 1960. As ostras são eficientes filtradores, retendo o excesso desses compostos responsáveis pela dita explosão de algas. Portanto, a pressão antrópica sobre a Baía de Chesapeake é certamente o principal causador de sua degradação.
Projeção catastrófica. Em 2006 viviam nas áreas costeiras 45% da população humana mundial; em 2040 há expectativa de que tal população seja de 80%.

7 de mar de 2009

A SUSTENTABILIDADE EM CAPÍTULOS: I - OS 4 PRINCÍPIOS CIENTÍFICOS DA SUSTENTABILIDADE










1. Produção (vegetal e animal) a partir da energia solar e dos elementos químicos (terrestres e aquáticos).
2. Biodiversidade (ou diversidade biológica).
3. Biogeociclagem.
4. Controle populacional.
Nossa condição atual de vida na Terra resulta de cerca de 3,5 bilhões de anos de existência evolutiva. Percorremos um longo caminho até o período atual em que o homem vem começando a compreender sua função (ou nicho ecológico) na Natureza.
Os 4 princípios científicos da sustentabilidade acima enumerados, constituem-se no que hoje entendemos como a base dos três tipos de desenvolvimento sustentável: o ecológico, seguido do desenvolvimento econômico, que potencializa o desenvolvimento sustentável social. Exatamente nesta ordem.
Nessa listagem acima, observamos que o ponto inicial é um recurso natural tido como abundante e inesgotável: a energia solar, que adicionada dos elementos químicos existentes nos solos e nas águas, potencializam a produção. O item seguinte, a biodiversidade, é um potencial cuja existência (e disponibilidade de uso pelo ser humano) depende não somente das condições naturais (geoclimáticas) mas também, e fortemente, das ações antrópicas (causadas pelo homem). A biogeociclagem é um processo regulador natural, que vem sofrendo influências antrópicas crescentes.
O crescimento populacional humano vem contribuindo para um aumento exponencial do papel do homem na vida na Terra. Por sua vez, o crescimento econômico passou a ser o fator-chave do desenvolvimento. De acordo com o documento da ONU (2005) “Millenium Ecosystem Assessment” ou seja, uma Avaliação de Ecossistemas do Milênio, feito por 1300 especialistas de 95 países, as atividades humanas já degradaram ou super-utilizaram cerca de 62% dos serviços naturais da Terra [ver Serviços Ambientais numa das postagens anteriores deste blog]. A pressão atual sobre nosso planeta compromete a sustentabilidade das gerações futuras, que correm o risco de não conseguirem ter “nem o mínimo” para seu sustento. Ou seja, o capital natural (recursos naturais e serviços ambientais) comprometem ou melhor, fragilizam a biodiversidade e a disponibilidade dos nutrientes necessários à produção, providos pela biogeociclagem.
Desde os anos de 1900 o crescimento econômico mundial aumentou em cerca de 40 vezes até a época atual. No entanto, convivemos com os seguintes dados alarmantes e deprimentes: a) mais da metade das pessoas no mundo vive em extrema pobreza, tentando sobreviver com uma renda diária inferior a U$2 (dólares americanos); b) e um sexto das pessoas luta desesperadamente para sobreviver com uma renda diária inferior a U$1.
Com relação ao controle populacional, vejamos alguns fatos preocupantes: 1) dos 6,7 bilhões de seres humanos do planeta, 1,2 bilhões vivem nos países desenvolvidos (E.U.A., Canadá, Japão, Austrália, Nova Zelândia e a maioria dos países europeus); 2) 5,5 bilhões estão nos países em desenvolvimento (principalmente na China, Índia, Brasil, Turquia, Tailândia, México; e nos demais países da África, Ásia e América Latina).
A figura acima mostra uma visão geral desses dois grandes grupos de países, segundo a ONU e o Banco Mundial (reproduzido de "MILLER & SPOOLMAN (2009) Living in the Environment. Belmont, Brooks Cole, 563p. + Apêndices"). Os dados são em porcentagem.
Já faz bastante tempo que saímos da fase de “dominar a Natureza” para sobreviver; passamos pela fase de aumento do poder econômico “destruindo a Natureza”; e agora estamos entrando na fase de reconhecimento do que fizemos e do que precisamos fazer para "reconstruir a Natureza". Antes que seja tarde.

2 de mar de 2009

REPRESAS E TERREMOTOS: NÃO PODEMOS ESQUECER OS 70 MIL CHINESES MORTOS
























[Baseado em artigo publicado em Newscientist, 31 de janeiro/2009 e assinado por A. C. Grayling, filósofo de Birkbeck, University of London]

Em 12 de maio de 2008 ocorreu um terremoto de 7,9 na escala Richter na província de Sichuan, na China. Cerca de 70 mil pessoas morreram; 5 milhões de desabrigados, rios bloqueados e o risco de que 300 represas se rompessem, foram contabilizados nesse evento de grandes proporções e maiores preocupações. Se alguma grande represa tivesse se rompido o desastre teria uma dimensão catastrófica difícil de ser imaginada.
O terremoto foi sentido em locais distantes, como Índia, Taiwan e Mongólia. A causa residiu na falha existente entre o alto platô do Tibete e a crosta por baixo da bacia de Sichuan e o sudeste da China. A sismologia nos ensina que terremoto ocorre quando estresse tectônico acumulado ao longo de falhas atinge um ponto crítico e de repente há uma liberação de tensão, ocorrendo então o terremoto. Há sempre especulações a respeito do que precipita o processo em si. É óbvio que uma causa natural sempre seja apontada como responsável; mas... e se a verdadeira causa for ação ou ações antrópicas?!
Seismólogos têm sugerido recentemente que uma nova represa de Sichuan, a Zipingku, localizada no rio Min perto de Dujiangyan e concluída em 2006, possa ter sido responsável por ação desse tipo. A imensa carga de água retida no reservatório da represa pode ter sido o estopim da liberação catastrófica do estresse existente sobre a “falha de Longmenshan”. Os seismólogos sustentam que advertiram sobre os riscos de terremotos nesse local.
Sichuan é uma região com muitas represas, tendo a maioria sido construída nas décadas recentes. A maior delas já é mundialmente conhecida: a represa das Três Gargantas, no rio Yangtze. É a maior represa do mundo, distando 550 km a leste do epicentro do terremoto de Sichuan. A ocorrência desse terremoto apressou os engenheiros a verificarem a segurança das Três Gargantas. O inverso, ou seja, checar as possibilidades de terremotos ou outras implicações ambientais na região, antes que ocorram, já não é objeto de urgência por parte de engenheiros envolvidos num alucinante processo de busca por crescimento econômico; como aliás deveriam ter feito para a represa de Zipingku antes de ser construída.
Algumas características da represa das Três Gargantas. A parede de concreto tem cerca de 2309 m de comprimento, 101 m de altura, medindo 115 m de espessura na base e 40 m no topo. Foram utilizados 27.200.000 m3 de concreto, 463.000 toneladas de aço (suficientes para construir 63 torres Eiffel); e foram mobilizados 102.600.000 m3 de terra durante a construção. Quando o nível de água atingir o máximo, estará a 91 m acima do nível do rio, tendo o represamento um comprimento total de 660 km e uma largura média de 1,12 km contendo um volume total de água de 39,3 km3. O reservatório cobrirá uma área total de 1045 km2. Quando essa área é comparada à do reservatório de Itaipu (1350 km2) percebe-se que há maior concentração de volume de água nas Três Gargantas.
Numa das fotos acima vê-se a câmara elevatória de navios, capaz de elevar 12.800 toneladas a uma altura de 113 m.
O terremoto de Sichuan teve conotações especialmente trágicas pelo fato de que muitas mortes ocorreram entre crianças nas escolas, onde os tetos desabaram sobre elas. Esta é uma combinação “perversa”: a correria para construir represas e escolas de estruturas precárias; ou seja, resultado de falta de cuidado, valores distorcidos e insensatez.
Surge assim com esse exemplo do mundo oriental em transformação, um questionamento muito sério a respeito de ciência e tecnologia. Além disso, essa gigantesca represa constitui-se num “grande reservatório de controvérsias” (política, econômica, ambiental, social; assunto extenso demais, que demandaria um próximo capítulo).

24 de fev de 2009

EM ESPECIAL PARA QUEM GOSTA DE PERGUNTAR: PARA QUE SERVE ESSE BICHO???


[BILINGÜE]

Mole rats may hold secret to long life

Ratos-toupeira podem possuir o segredo da longa vida

[NEWSCIENTIST, 23 February 2009]


INGLÊS: they may not be the prettiest creatures, but naked mole rats may hold the secret to longevity. They can live for nearly 30 years longer than any other rodent.
PORTUGUÊS: eles podem não ser as criaturas mais bonitas, mas os ratos-toupeira pelados [Heterocephalus glaber; do leste da África] podem possuir o segredo da longevidade. Eles podem viver por aproximadamente 30 anos mais do que qualquer outro roedor.
INGL.: Ageing is often blamed on the oxidising compounds we produce in our bodies, which gradually wear down DNA and proteins. These damaged molecules then go on to wreak havoc in cells.
PORT.: Freqüentemente atribui-se culpa pelo envelhecimento aos compostos oxidantes que nós produzimos em nossos corpos, os quais gradualmente desgastam o DNA e as proteínas. Estas moléculas danificadas progridem, para arrasar células.
INGL.: [...] To investigate, Rochelle Buffenstein of the University of Texas Health Science Center in San Antonio and colleagues extracted liver tissue from both species and treated it with chemicals that "unravel" proteins to reveal damage. They found twice as many undamaged proteins in naked mole rats as in mice. What's more, the rats' protein recycling machinery was exceptionally active.
PORT.: [...] Para investigar, Rochelle Buffenstein do Centro de Ciência da Saúde da Universidade do Texas em San Antonio, e seus colegas, extraíram tecido do fígado de ambas as espécies [do rato-toupeira e do rato comum] e o trataram com substâncias que “separam” proteínas para revelar o dano. Eles encontraram duas vezes mais proteínas não danificadas nos ratos-toupeira-pelados do que nos ratos comuns. E ainda, o mecanismo de reciclagem de proteínas dos ratos[-toupeira] era excepcionalmente ativo.
INGL.: The team suspects that naked mole rats manufacture extra quantities of molecules that are responsible for labelling damaged proteins that need to be recycled quickly to minimise their effect on cells. The researchers hope to identify these molecules and test if it is possible to use them to treat age-related disease in humans.
PORT.: A equipe suspeita que os ratos-toupeira-pelados fabricam quantidades extras de moléculas que são responsáveis por rotularem as proteínas danificadas que necessitam ser recicladas rapidamente para minimizar seus efeitos sobre as células. Os pesquisadores esperam identificar estas moléculas e testar seu possível uso no tratamento de doenças relacionadas ao envelhecimento nos seres humanos.

19 de fev de 2009

A RADIAÇÃO UV E O CÂNCER MAIS PROVÁVEL QUE VOCÊ VENHA A TER

Numerosas pesquisas indicam que anos de exposição à radiação ionizante UV-B da luz solar, são a causa primária de câncer de pele dos tipos célula escamosa e célula basal, os quais são responsáveis por até 95% de todos os tipos de câncer de pele. Há, tipicamente, um interstício de 15 a 40 anos entre exposição aos raios UV e o aparecimento desse tipo de câncer.
Crianças e adolescentes de origem caucasiana (com pele branca) que têm uma única queimadura solar grave duplicam suas chances de vir a ter tais tipos de câncer de pele. De 90 a 95% desses tipos podem ser curados se detectados o bastante cedo, embora sua remoção possa deixar cicatrizes desfigurantes. Esses tipos de câncer matam somente de 1 a 2% de suas vítimas, o que, nos Estados Unidos por exemplo, representam 2.300 mortes por ano.
Um terceiro tipo de câncer de pele, o melanoma maligno, ocorre em áreas pigmentadas da superfície do corpo, como nos sinais. Este tipo pode espalhar-se rapidamente (dentro de poucos meses) para outros órgãos, incluindo fígado e cérebro, e mata cerca de um quarto de suas vítimas (a maioria abaixo dos 40 anos) dentro de cinco anos, mesmo considerando que possam submeter-se à cirurgia ou quimioterapia e radioterapia. Todo ano este tipo de câncer mata cerca de 100.000 pessoas (nos Estados Unidos, 6.900 pessoas em 1994), a maioria caucasiana, mas pode também ser curado se detectado bastante cedo. O tempo decorrido entre a exposição à radiação UV (raios UV-A e UV-B) e a ocorrência de melanoma é de 15 a 25 anos. No Brasil estima-se que 25% da população branca tem algum tipo de câncer de pele.
Uma outra forma de carcinoma que comumente ocorre em pessoas de cor branca que vivem nos trópicos (Brasil e Austrália, por exemplo) é a doença de Bowen. Este carcinoma é uma forma benigna, mas ocasionalmente pode se tornar invasiva, podendo ser tratada com crioterapia ou excisão cirúrgica.
São conhecidos os efeitos da radiação ultravioleta no sistema imunológico. Por exemplo, herpes labial ocorre freqüentemente no começo do verão devido ao efeito imuno-supressivo da radiação UV na pele, resultando na ativação do vírus herpes. É possível que a susceptibilidade a certas infecções da pele tais como leishmaniose e lepra, aumentaria com uma maior exposição à luz UV, uma vez que a expressão dessas doenças depende de resposta da célula mediada pelo sistema imunológico. A radiação UV induz à formação de células-T supressoras as quais inibem a resposta anti-tumoral normal e permitem o surgimento e a progressão de tumores.
Há evidências de que pessoas, especialmente caucasianas, que sofrem tres ou mais queimaduras solares com formação de bolhas antes dos 20 anos de idade, subseqüentemente são cinco vezes mais suscetíveis a desenvolverem melanoma maligno do que aquelas que nunca tiveram queimaduras graves. Cerca de 10% das pessoas que têm melanoma maligno herdaram gene que as tornam especialmente suscetíveis a esta doença.
Para proteger-se eficientemente, o procedimento mais seguro é não tomar sol especialmente entre 10 horas da manhã e 3 horas da tarde, quando os níveis de UV estão mais altos, e evitar o uso de bronzeadores. Use roupas e chapéu de aba larga ou boné e óculos para sol com proteção contra UV (os óculos ordinários sem tal proteção promovem maior dilatação da pupila, de maneira que mais raios UV atingirão a retina). Como os raios UV penetram através das nuvens, um dia nublado não significa que você estará totalmente protegido(a); nem tampouco a sombra lhe protegerá, uma vez que os raios UV refletem-se facilmente na areia, na água (na neve) e nas superfícies cimentadas, como pátios, paredes etc. (nas superfícies brancas em geral). Pessoas que estejam tomando antibióticos e mulheres que estejam tomando pílulas anticoncepcionais são mais suscetíveis a danos causados por UV. Há estimativas do "buraco" da camada de ozônio sobre a Antártica já ter atingido a dimensão de 24 milhões de km2, ou quase tres vezes o tamanho do Brasil.
O FPS - Fator de Proteção Solar (derivado do inglês “SPF – Sun Protector Factor”) é uma taxa relativa padronizada pelo “FDA – Food and Drug Administration”, dos EUA com as seguintes características: admitindo-se que a pele humana queima após 10 minutos de exposição ao sol, quando ela for protegida por um protetor solar com FPS 15 isto significará que uma queimadura similar levará 15 vezes mais tempo para acontecer e se for protegida por um FPS 30 significará que uma queimadura será retardada por um tempo 30 vezes mais longo; e assim por diante ... . Aplique protetor solar com fator 15 ou 30 (ou mais, se tiver pele clara) cada vez que for ao sol (aqui nos trópicos, diariamente); reaplique-o quando suar ou tomar banho (de mar, piscina, chuveiro...). Como há possibilidade de que raios UV-A e UV-B possam causar melanoma maligno, é importante usar protetor solar de espectro mais amplo, que filtre UV-A e UV-B. Crianças que usaram protetor solar com fator 15 toda vez que iam ao sol, desde que nasceram até os 18 anos de idade, diminuíram sua chance de ter câncer em 80%. Bebês com menos de um ano de idade devem tomar sol somente de manhã cedo (que é importante para a sintetização de vitamina D) e nunca entre 10 horas da manhã e 3 horas da tarde.
Familiarize-se com os seus sinais, verrugas e sardas (e de seus filhos também). Os sinais visíveis de um câncer de pele são suas mudanças de tamanho, forma ou cor. O aparecimento repentino de pequenas manchas escuras na pele ou um pequeno ponto dolorido que coce ou sangre ou uma ferida ou descascamento que não cicatrize, são sinais suficientes para que você procure imediatamente um dermatologista.
No site http://satelite.cptec.inpe.br/uv/, o INPE divulga os índices de UV no Brasil (veja postagem anterior neste blog).

18 de fev de 2009

RADIAÇÃO ULTRAVIOLETA: COMO FICAR DE OLHO NELA!







Inicialmente vejamos o significado de ozonosfera, segundo o Glossário de Ecologia e Ciências Ambientais:


OZONOSFERA
Camada de ozônio, geralmente situada na estratosfera (a mais ou menos 30 km de altitude) que se constitui em importante filtro da radiação ultravioleta. No site do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (http://satelite.cptec.inpe.br/uv/) são mostradas as medições da radiação UV feitas nas regiões e Estados brasileiros.
A ozonosfera é formada a partir da cisão da molécula de O2, pela energia solar, na seguinte reação fotoquímica:
O2 + hv « 2O
[oxigênio molecular + energia solar = átomos de oxigênio]

em seguida o oxigênio combina-se com o O2 formando o ozônio:
O2 + O « O3
[ozônio]
Há evidências de que alguns compostos, principalmente o clorofluorcarbono (CFC) e o metano (CH4) contribuem para a destruição da ozonosfera, formando o popularmente conhecido “buraco da camada de ozônio ou da ozonosfera”. O conhecimento sobre tal buraco remonta ao final da década de 1920, quando foi sintetizado o CFC. No início da década de 1970 os químicos americanos Mario José Molina (de origem mexicana) e Sherwood Rowland identificaram teoricamente a ameaça à deterioração da ozonosfera pelos CFCs. Em 1983, cientistas do “British Antartic Survey” (do Levantamento Britânico da Antártica) confirmaram então a existência de um “buraco” acima do pólo sul.

Veja nas figuras acima: na figura superior, os índices de UV registrados na região Nordeste no dia 18/fevereiro/2009; observe que em toda a região Nordeste a cor única é violeta, e que de acordo com a Tabela do Índice UV (mostrada na figura inferior), os índices representados com a cor violeta estão entre 11 e 14 (valores máximos da escala, que vai de 0 a 14) [de acordo com divulgação feita no site do INPE].

6 de fev de 2009

AMAZÔNIA EM CAPÍTULOS: V – MEGADIVERSIDADE É UM DOS NOSSOS MAIORES PATRIMÔNIOS



































Megadiversidade O ecólogo Russell Mittermeier quando pesquisava sobre primatas, observou que 75% das espécies desses “macacos e assemelhados” concentravam-se em quatro países: Brasil, Congo, Indonésia e Madagascar. E concluiu que, à maneira do grupo dos sete grandes países do mundo que formavam o G7, havia o grupo G17, os dezessete países que tinham a maior variedade de espécies de organismos superiores, ou seja, países que ostentavam a MEGADIVERSIDADE. E assim a “Conservation International”, organização voltada para a conservação da Natureza, passou a usar a expressão País da Megadiversidade. Entre os principais critérios para considerar um País de Megadiversidade há: número de plantas endêmicas (originadas do próprio local), e número total de mamíferos, pássaros, répteis e anfíbios. O site da “Conservation International” http://www.conservation.org.br/ disponibiliza em PDF, a revista semestral, Megadiversidade, que divulga artigos de pesquisadores da biodiversidade de nossos maiores biomas. Lembrete: biomas são grandes ecossistemas, que dispõem de clima, condições de solo, flora e fauna próprios; ecossistemas são sistemas ecológicos naturais, com componentes vivos (bióticos) e não-vivos (abióticos) em interação e interdependência.
Os 17 países megadiversos estão distribuídos nos quatro continentes ricos em habitats naturais; são eles: Brasil, Colômbia, México, Venezuela, Equador, Peru, Estados Unidos, África do Sul, Madagascar, República Democrática do Congo, Indonésia, China, Papua Nova Guiné, Índia, Malásia, Filipinas e Austália.
Em termos de biodiversidade de ambientes terrestres, o Brasil é o “campeão absoluto”, reunindo quase 12% de toda a vida natural do planeta. Concentra 55 mil espécies de plantas superiores (22% de todas as que existem no mundo), muitas delas endêmicas; 524 espécies de mamíferos; mais de 3 mil espécies de peixes de água doce; entre 10 e 15 milhões de insetos (a grande maioria ainda por ser descrita); e mais de 70 espécies de psitacídeos (araras, papagaios e periquitos) (esses números estão sempre aumentando). Numa classificação entre os maiores, o Brasil ocupa o primeiro lugar em abrigar uma maior variedade de anfíbios (516 espécies), terceiro em aves (1622 espécies) e quarto em mamíferos (428 espécies) e répteis (467) (segundo dados de “Global Diversity - Status of the Earth's Living Resources”).
Quatro dos biomas mais ricos do planeta estão no Brasil: Mata Atlântica, Cerrado, Amazônia e Pantanal.

Secretaria de Biodiversidade e Florestas O MMA – Ministério do Meio Ambiente dispõe no seu site http://www.mma.gov.br/ de informações sobre políticas e estratégias de ações para as “Áreas Prioritárias para Conservação, Uso Sustentável e Repartição de Benefícios da Biodiversidade Brasileira /2006”. Ainda o MMA estabeleceu o “Processo de Atualização das Áreas Prioritárias para Conservação, Uso Sustentável e Repartição de Benefícios da Biodiversidade Brasileira”. Novecentas áreas foram reconhecidas, devendo essa lista ser revista até no máximo dez anos pela CONABIO – Comissão Nacional de Biodiversidade. Em tal processo estão mencionados (e como temos siglas!): o PNAP – Plano Nacional de Áreas Protegidas e o PAN-Bio no qual constam as “Diretrizes e Prioridades do Plano de Ação para Implementação da Política Nacional de Biodiversidade” (sobre Políticas Públicas ver o que o autor deste blog divulgou a respeito, numa das postagens anteriores: POLÍTICAS PÚBLICAS: A TEORIA, NA PRÁTICA É...UM SONHO).
O Brasil participa da CDB – Convenção sobre Diversidade Biológica (desde 1992). Como é dito no site do MMA: “O desafio da CDB é conciliar o desenvolvimento com a conservação e a utilização sustentável da diversidade biológica. Esta tarefa não terá êxito, no entanto, sem a ajuda tecnológica e financeira dos países economicamente desenvolvidos [...].”. Donde eu concluo que: (1) embora na divulgação dessa Secretaria não seja dito que não é somente devido às dimensões do nosso país, mas também pelo fato de nós mesmos não priorizarmos ações para preservação de nossos ambientes, não investirmos na formação e contratação de pesquisadores... etc. ... teremos que depender de ações de outros países (os ricos) para agirmos em favor dos quatro biomas mais ricos do planeta (e que são nossos, como foi dito acima). (2) E como vamos convencer esses países a “colaborarem”: (a) sensibilizando-os (?), (b) negociando (?)... ou (c) talvez até “chantageando”: ou participa com o recurso financeiro ou nós destruímos tudo! Certamente não será pesquisando, obtendo patentes (até o cupuaçu não é patente nossa! é o "cupulate" dos japoneses; e dizem que até a rapadura também não!). (3) Em termos de planejamento e ações, acredito que no Brasil muitas coisas são feitas de uma das seguintes maneiras: em curto prazo (= talvez seja feito na gestão de um governo), médio prazo (= poderá ser feito na próxima gestão; se houver!) e em longo prazo (= será feito na “próxima encarnação”!!!).
E a conservação da Megadiversidade? Enquanto a tecnocracia e a burocracia brasileiras discutem “o quê, onde e como” proteger... vejamos um pouquinho sobre o potencial da biodiversidade amazônica. As fotos acima ilustram as plantas e os animais seguintes:
Mogno (Swietenia macrophylla): altura de 25 a 30 m, com tronco de 50-80 cm de diâmetro. Está incluída no CITES – Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas. Para sua preservação faz-se necessária (entre outros aspectos), obedecer à certificação do “FSC – Forest Stewardship Council” (Conselho de Manejo Florestal).
Andiroba (Carapa guianensis): árvore de uns 30 m de altura. Os frutos produzem sementes (“andi-roba”, em tupi-guarani quer dizer semente amarga). O óleo e a gordura são utilizados pelos amazônidas (ver foto acima e finalidades).
Pau-rosa (Aniba rosaeodora): há manejo atualmente, que evita a destruição desta árvore da qual se extrai uma fragrância famosa por ter sido usada na produção do perfume francês Chanel n. 5 (detalhes no site http://www.inova.unicamp.br/inventabrasil/paurosa.htm).
(Phyllobates terribilis): em duas fotos, em que numa delas um índio, com cuidado para não tocar seus dedos nela, esfrega a ponta do dardo, que se impregna com seu veneno; e com isso, o dardo é usado para caçar por um longo tempo (sem necessidade de nova impregnação). De 1 a 2 microgramas por quilo da batracotoxina da pele viscosa dessa rã são suficientes para matar uma pessoa pesando uns 70 kg, se esta tocar em sua pele e que tenha algum ferimento. É 15 vezes mais potente do que o curare, atuando nos neurônios do sistema nervoso (central e periférico) e nas musculaturas estriadas e cardíaca. Há grande potencial para usos anestésico e analgésico (mais potente do que a morfina) e ainda contra arritmias, e como anti-convulsivo e anti-depressivo.
Onça-pintada (Panthera onca): no maior parque de florestas tropicais do mundo, o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque (3,8 milhões de hectares ou 38 mil km2) encontra-se onça-pintada. Sua dieta bastante variada e sua demanda por grande espaço natural (cerca de 60 km2) implicam forçosamente na conservação do seu habitat. É um animal ameaçado de extinção.

Muito mais informações podem ser vistas em “CAPOBIANCO e colaboradores (2001) Biodiversidade na Amazônia Brasileira. São Paulo, Estação Liberdade (Instituto Socioambiental), 540p”.