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26 de abr de 2009

ALGUMAS PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE A “GRIPE SUÍNA”

[New Scientist, 26 de abril de 2009]
Pergunta: Posso comer carne de porco?
Resposta: De início é bom esclarecer que a denominação “gripe suína” NÃO quer dizer que seja um vírus que infecta suínos, mas sim pela semelhança de uma de suas proteínas com as proteínas de vírus que geralmente infecta esses animais. Tal vírus ainda não foi detectado em porco, mas sim em seres humanos.
P.: Quem deve se preocupar?
R.: Há motivos para preocupações ao se observar que dentre as 81 pessoas afetadas, com várias mortes (até 26/abril/2009) com essa gripe no México, a maioria era jovens adultos. Portanto, seu potencial mortal pode ser grande. Resta saber quão severo é seu potencial de disseminação.
P.: Poderá se disseminar para outros países, podendo chegar ao Brasil?
R.: As viagens internacionais, hoje, são muito comuns e freqüentes. Há informações de que alguns países já estão utilizando câmeras de raios infravermelhos, nos aeroportos, para detectar pessoas com febre e que estejam vindo de locais conhecidamente afetados (do México e Estados Unidos).
P.: E qual é seu potencial de disseminação?
R.: Como as pessoas infectadas nos Estados Unidos não entraram em contato com porcos, nem comeram carne de porco, e nem tiveram contato umas com as outras, sabe-se que esse vírus é transmitido entre seres humanos, suspeitando-se que foram necessárias algumas semanas para que isso acontecesse. Investiga-se agora que tipo de contato essas pessoas tiveram com outras possivelmente infectadas; e daí podermos ficar sabendo sobre quão facilmente (ou não) o vírus se dissemina.
P.: Há medicamento e vacina contra a gripe suína?
R.: Não há vacina disponível. A gripe tem se mostrado suscetível ao medicamento antiviral “Tamiflu”; sem se saber por quanto tempo permanecerá assim ou se desenvolverá resistência.
P.: Qual seria então o motivo para tanta preocupação? Há risco de pandemia?
R.: É possível. Principalmente porque é mais um “novo vírus”. E como vírus de gripe está sempre “evoluindo”, ou seja, a maioria sofre modificações estruturais nas proteínas de sua superfície (do envelope), cada novo vírus dispõe de mecanismos para “enganar” as defesas de nosso sistema imunológico. Conhecem-se hoje 16 diferentes famílias de vírus com diferentes proteínas de superfície; além do fato de que os vírus trocam entre si genes. Um exemplo de possível resultado: proteínas de superfície de vírus de porco ou de vírus da gripe aviária poderão circular entre pessoas. Daí, uma pandemia poderia ocorrer. O vírus da gripe suína é da família de vírus H1N1; a mesma família de vírus da pandemia de 1918, a gripe espanhola que matou cerca de 50 milhões de pessoas.
Observações: 1) a gripe aviária, vírus da família H5N1, segundo a OMS – Organização Mundial de Saúde, matou 257 pessoas em 2003, das 421 infectadas (de 15 países); 2) gripes estacionais (ou sazonais) matam a cada ano no mundo, entre 250 mil e 500 mil pessoas; e a cada poucas décadas surge uma nova linhagem de gripe que pode ser pandêmica.

9 de abr de 2009

NA ANTÁRTICA A PERDA E O GANHO DE GELO COMPROVAM AQUECIMENTO GLOBAL














PERDA DE GELO. A notícia já percorre o mundo, via “cyberspace”: uma ponte de gelo (Wilkins) ligando duas ilhas na Antártica, Charcot e Latady, rompeu-se. As fotos acima (imagens do “Moderate Resolution Imaging Spectroradiometer – MODIS”, instalado no satélite Aqua, da NASA) mostram o rompimento. Na imagem da esquerda (de 31/março/2009) vê-se a ponte ainda intacta, apresentando a aparência “lisa”, sem quebras. Poucos dias depois (em 06/abril/2009) foi obtida outra imagem, a foto da direita, em que a ponte aparece despedaçando-se. Desde 2008 a “European Space Agency” vem acompanhando a existência e quebra da ponte de Wilkins. A ponte Wilkins é a décima, das maiores plataformas, a sofrer colapso nos anos recentes. Uma prova de que há elevação de temperatura perturbando o frágil equilíbrio da criosfera do nosso planeta.
Embora o colapso dessa ponte de 13 mil km quadrados não exerça ação direta no aumento do nível do oceano, sua desintegração indiretamente reduzirá a estabilidade das geleiras que “a alimentam”. Christian Lambrechts, do departamento de advertências e estudos da “UNEP – United Nations Environment Programme” (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) afirma que tal colapso exporá nova área da superfície do oceano, que assim absorverá mais radiação solar, contribuindo para o contínuo e acelerado aquecimento da região.
A lição maior aprendida com esse fato é de que as modificações na Antártica estão ocorrendo mais rápido do que se pensava. No início da década de 1990 estimava-se que em 30 anos ocorreriam fenômenos como esse. E ainda, segundo a pesquisadora Angelika Humbert, do Instituto de Geofísica da Universidade Münster, Alemanha, isso serve como advertência de que as plataformas de gelo da Antártica são potencialmente instáveis em escalas curtas de tempo.
GANHO DE GELO. A revista inglesa “New Scientist” já divulgara em 01/junho/2002, em artigo intitulado: “Está mais quente mas, há mais gelo”, que apesar das notícias sobre colapso de plataformas de gelo, há acréscimos de uns 200 mil quilômetros de gelo na Antártica. Mas os céticos do aquecimento global talvez concordem (ou não) com a seguinte possível explicação: um aumento da precipitação de neve vem ocorrendo como resultante de maior umidade proveniente da evaporação da água devido ao aumento da temperatura. Com isso, análises de dados obtidos nos últimos 20 anos de observação das imagens de satélite contradizem as previsões de que metade do mar de gelo da Antártica desaparecerá no século vindouro. Ou seja, as precipitações extras de neve superariam o derretimento das geleiras pelo aumento da temperatura atmosférica (do aquecimento global). Estima-se que o mar de Ross tenha mais 13% de gelo do que em 1979.
Mas há observações de que tal crescimento em geleiras é localizado; e que em algumas áreas o derretimento supera o acréscimo de geleiras. Algumas geleiras, como a de Larsen, tem ciclos de acréscimo e derretimento.
Mais geleiras mais água doce no oceano e daí... com esse aumento o oceano torna-se mais estável, reduzindo-se a transferência de calor proveniente de sua zona mais profunda. Isso facilita o congelamento da água, que assim refletirá mais a radiação solar incidente, contribuindo para reduzir (vagarosamente) o efeito do aquecimento global. Essa situação na Antártica está em contraste gritante com a região Ártica, onde já vêm sendo registradas perdas de 40% da camada de gelo de verão nos últimos 50 anos.

7 de abr de 2009

“OVOS DE CHOCOLATE” SOB CRESCENTE AMEAÇA DA VASSOURA DE BRUXA (NO BRASIL) E DE VIRUS (NA ÁFRICA) [ou RISCOS DA MONOCULTURA]







Newscientist, 08/abril/2009
Chegou a época novamente, dos ovos de chocolate e as vendas desse símbolo, pagão e cristão do renascimento, estão mais fortes do que nunca. Mas a “caçada” por ovos de páscoa pode realmente acontecer no próximo ano, porque os cacaueiros estarão em maus lençóis.
O vírus do cancro caulinar (em inglês “cocoa swollen shoot vírus – CSSV”) poderá matar as árvores e ameaçar derrubar a produção da primavera deste ano, em um terço, num dos maiores produtores mundiais de cacau: a Costa do Marfim (oeste da África, região responsável por 70% da produção mundial). Enquanto isso, o fungo “vassoura de bruxa” (Crinipellis perniciosa) faz o mesmo no Brasil. Pesquisadores do “CRIG – Cocoa Research Institute of Ghana” ao tempo em que se apressam em seqüenciar o genoma do cacaueiro para encontrar genes que possam resistir ao “CSSV”, encontraram variedades com resistência parcial ao vírus. Ray Schnell e colegas, de laboratório do “US Department of Agriculture” em Miami, Florida, tentam apressar o processo mapeando o gene (e afirmam que isso seria bem mais fácil se o genoma do cacaueiro já tivesse sido mapeado). E assim, se tentará obter por cruzamento, linhagens de cacaueiros que possam resistir ao vírus. Enquanto isso, só resta aos fazendeiros da região (desprovidos de recursos), queimar os cacaueiros contaminados e expandir o cultivo para novas áreas.
É praticamente impossível evitar que os cacaueiros se contaminem porque o vírus, endêmico, provém de árvores nativas (algumas delas importantes para sombrear os cacaueiros), de onde surgem e se disseminam através de um vetor, um inseto, a cochonilha (Maconellicoccus sp) [conhecido.em inglês como “mealy bug”, literalmente, bicho farináceo].
Segundo o pesquisador inglês Paul Hadley, da Universidade de Reading, um fator que promove a disseminação dessa praga é o fato de que o cacaueiro (originário da úmida Amazônia) vem sendo cultivado em extensos plantios (monocultura) em regiões secas da África, onde as árvores sob estresse hídrico são menos aptas a resistir à praga. A carência de recursos para uso de fertilizantes agrava a situação.
Embora novos estoques genéticos de cacaueiros da América do Sul estejam sendo selecionados para a África, medidas de precaução, como uma quarentena de dois anos e mais hum ano experimental, retardarão em três anos para que se inicie a contornar tal problema. Se obtido resultado positivo desse procedimento, será produzido um “kit” que poderá ser usado pelos fazendeiros africanos para selecionar plantas resistentes ao “CSSV”. Já se usa no centro de pesquisas de Gana (no “CRIG”), um “kit” semelhante para combater o fungo da podridão parda (Phytophthora sp).

5 de abr de 2009

ÁGUA: O GRANDE DESAFIO DESTE MILÊNIO







[Contribuição de SANDRA LIMA - ver endereço no final do texto - fotos: rio Paraguai]

Comemoramos o “dia mundial da água” marcado pela tomada de consciência diante do quadro em que se encontram os recursos hídricos. A sensibilização geral já vem acontecendo durante décadas, mas com os cenários projetados torna-se imprescindível que cada habitante se conscientize acerca do uso e da disponibilidade real da água no mundo.
Criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) seguindo as recomendações da Eco-92, conferência realizada no Rio de Janeiro, estiveram nas pautas anuais, além dos vários estudos e discussões, temáticas como vida, saúde, escassez, saneamento, disponibilidade, ações e cuidados, questões de gênero, águas subterrâneas, entre outros.
A “Declaração Universal dos Direitos da Água” caracteriza este precioso bem ambiental como seiva do planeta, patrimônio da humanidade, direito fundamental, condição essencial de sobrevivência, bem de valor econômico e recurso insubstituível. Deve ser utilizado racionalmente com precaução e parcimônia, determinando responsabilidades para conservação e preservação em águas superficiais ou subterrâneas, tanto do indivíduo quanto dos governos.
A sobrevivência dos seres vivos traduz a necessidade de uma gestão consciente, pois atualmente a prática de uso extrapola os limites recomendados de 40 litros dia/habitante (nas regiões em que o consumo ainda é possível). Estima-se que são gastos em média 200 litros no Brasil, enquanto que dados da ONU confirmam que nos EUA a média é de 575 litros e em Moçambique 10 litros por cada pessoa. Milhões de pessoas já sofrem com a ausência desse recurso estratégico de governança e essencial à vida.
Considerando que o ciclo hidrológico continua o mesmo há milhares de anos, em contraste com previsões de que a água pode desaparecer do planeta, torna-se urgente a implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei nº 9433/97) que estabelece a gestão integrada da água em todas as suas características, destacando a formação dos Comitês de Bacias Hidrográficas como parlamento de discussão e adoção de medidas pertinentes.
A qualidade e a quantidade de água potável vêm diminuindo a cada dia e consequências como a transmissão de doenças, queda na produção de alimentos e conflitos entre nações já estão “naturalizadas” no cotidiano das pessoas. Dentre as causas, estão os problemas como enchentes, abastecimento precário, acúmulo de resíduos doméstico/industriais nos mananciais, além do desmatamento das florestas e das matas ciliares.
As águas transfronteiriças, as compartilhadas por Estados e países, como é o rio Paraguai é o tema principal de 2009. Para isso as nações devem promover as oportunidades de cooperação na gestão e garantir que gerações presentes e futuras possam compartilhar desse bem, pois não importa em qual trecho do rio vivemos, estamos todos no mesmo barco.
A região pantaneira precisa desmistificar “a pseudo abundância” dos recursos hídricos, presente nos discursos políticos e acadêmicos, já que realidades como a falta de água nos assentamentos; ausência de saneamento ambiental; falta de controle e fiscalização da geração, destinação e tratamento dos resíduos; contaminação do agronegócio e outras atividades humanas; assoreamento dos rios e extinção das nascentes contribuem para o agravamento da situação e devem ser discutidos por todos em busca de ações e soluções.
Vivenciamos o Decênio Internacional para a Ação Água (2005-2015) e a conservação e preservação é responsabilidade de todos. A população pode ajudar a diminuir esses impactos, seja evitando o desperdício ou ainda cobrando dos governos políticas de recuperação, revegetação e preservação dos mananciais e regularização do uso e ocupação do solo.
Será que realmente pensamos na falta que a água faz em nossas vidas?

Sandra Lima é Mestre em Ciências Ambientais pela Universidade do Estado de Mato Grosso. Contato: Sanlima11@hotmail.com