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31 de ago de 2011

DE OLHO (GRANDE) NOS (LUCROS DOS) ABROLHOS


Vamos começar relembrando o nome ABROLHOS, dado a esse “pequeno paraíso marinho” pelos navegantes portugueses, nossos descobridores. Como sempre se tratou de uma zona perigosa para os navegantes, nada melhor do que recomendar que quando por ali se passar “Abram os olhos”; e como nossos patrícios falam “ligeirinho e comendo sílabas” esse aviso tornou-se: ABROLHOS.
Este nome vem bem a calhar, principalmente diante da seguinte notícia:
[Notícia de 28/dezembro/2010]. Em decisão anunciada na semana passada, o Tribunal Regional Federal (TRF) da 1.ª Região cassou liminar obtida pelo Ministério Público da Bahia contra a atividade de exploração de petróleo e gás na região. Segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), cinco empresas operam 16 concessões para atuar na área da liminar. Uma delas é a EBX, presidida pelo milionário (ou seria bilionário?) Eike Batista e outra é a Perenco, sócia da EBX. Portanto, a exploração de petróleo na região do arquipélago de Abrolhos, no litoral baiano, foi liberada pela Justiça.
Na sentença de liberação, o desembargador Olindo Menezes afirmou que a decisão de suspender a atividade no local, tomada no início do ano pela Justiça Federal de Eunápolis (BA), acarreta "grave lesão à ordem e à economia pública". E completou: "atinge o planejamento estratégico do país em relação à nossa matriz energética, o que certamente coloca em risco a própria segurança nacional."
Infelizmente, não me parece que o excelentíssimo senhor desembargador conheça a importância ecogeográfica dos Abrolhos. E muito menos deve conhecer inúmeras alternativas energéticas de que dispõe este nosso imenso país. Parece não ter ele levado em conta um fato que insistimos em não priorizar no Brasil: o ecoturismo. O Parque Nacional Marinho dos Abrolhos dispõe de um potencial econômico diferenciado e restrito a pouquíssimas áreas de nossa plataforma marinha, que é o ecoturismo. Eis algumas de suas características: decreto de criação, Decreto Federal n. 88.218 de 06 de abril de 1983; área de 91.300 hectares; perímetro de 157 km; grande massa sólida de corais com rica biodiversidade (a maior do Atlântico Sul), com várias espécies endêmicas de águas brasileiras; avifauna exuberante que utiliza o arquipélago como ponto de pouso e procriação; lagartos; tartarugas-marinhas, verde e cabeçuda, que sobem às praias para desova; moluscos; crustáceos; equinodermos; inúmeras espécies de peixes; e nas suas águas próximas as baleias jubarte, que entre junho e dezembro, lá procriam.
Um grupo de trabalho interministerial foi criado na Casa Civil da Presidência da República e já começa a discutir um novo “desenho” para a faixa marítima que se estende por 450 km entre os litorais da Bahia e Espírito Santo. Participam do grupo Ibama, Ministério de Minas e Energia (MME), Ministério do Meio Ambiente e Agência Nacional do Petróleo (ANP). Certamente muitas discussões ainda rolarão sobre esse impedimento que “atinge o planejamento estratégico do país em relação à nossa matriz energética, o que certamente coloca em risco a própria segurança nacional”. Meu Deus! Misericórdia!!! Este apelo Divino pronunciaremos no dia em que um acidente ocorrer nessa área a ser explorada, seja na sua “zona de exclusão” ou “zona de amortecimento” ambas objetos da querela interministerial, quanto ao traçado dos seus limites, ou mesmo da existência da primeira!
Defensores da exploração de petróleo e gás alegam que não existe na Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (9.985/ 2000) a “zona de exclusão” e que tal zona não foi utilizada em nenhuma outra Unidade de Conservação do país. Infelizmente tais defensores desconhecem (ou ignoram propositadamente) que um acidente com petróleo num ambiente terrestre (onde se situa a esmagadora maioria das demais Unidades de Conservação brasileiras) é algo de consequências restritas, ao local em que venha a ocorrer; ao passo que num ambiente marinho... a situação é completamente diferente! Já se esqueceram do Golfo do México, na tragédia causada pela BP (britânica)??? É importante observar, porém, que, se o ambiente terrestre for a floresta amazônica e ocorrer um vazamento... aí as consequências poderão ser calamitosas!!! Deem uma olhadinha num vídeo da Globo, no qual um pesquisador enfatiza a “decisão que devemos tomar sobre os riscos de exploração de petróleo na Amazônia”; acessem:
http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1081192-7823-AMAZONIA+OS+CUIDADOS+PARA+EXTRAIR+PETROLEO+E+GAS+NA+REGIAO,00.html
Vamos refletir sobre os planos do governo quanto às opções de exploração de energia. Faço votos de que realmente existam! Quase sempre assistimos às vitórias do progresso (a qualquer custo) sobre a conservação do nosso patrimônio natural. Neste blog, em “postagens anteriores”, comentei sobre o caso da Alemanha: ALEMANHA: OPÇÃO ENERGÉTICA REAL E NÃO FICÇÃO CIENTÍFICA (09/06/2011).

30 de ago de 2011

SERÁ QUE NOSSA SALVAÇÃO DA DENGUE VIRÁ PELA BIOLOGIA MOLECULAR? BREVEMENTE?!



The wMel Wolbachia strain blocks dengue and invades caged Aedes aegypti populations. T. Walker et al. [doi:10.1038/nature10355]
e
Successful establishment of Wolbachia in Aedes populations to suppress dengue transmission. A. A. Hoffmann et al. [doi:10.1038/nature10356]
Nesses dois artigos acima, publicados na revista Nature, são enfocados experimentos realizados recentemente na Austrália e que nos traz uma “luz no fim do túnel” no drama de mais de 100 países que enfrentam a dengue, atacando cerca de 50 milhões de pessoas. Os autores desses estudos propuseram que infecções “endossimbióticas” causadas em insetos pela bactéria Wolbachia pipientis poderiam ser utilizadas como nova estratégia para controle da dengue. Vejamos inicialmente o que nos diz o Glossário de Ecologia e Ciências Ambientais sobre o que significa “endossimbionte”:
ENDOBIONTE = ENDOSSIMBIONTE
Organismo que vive no interior das células de um organismo hospedeiro, em íntima relação mutualística, sem causar-lhe dano aparente. Endossimbiose é o termo atribuído a este fenômeno.
Os pesquisadores lançaram mão de uma linhagem denominada wMelPop-CLA de Wolbachia. Na primeira fase da pesquisa os autores transferiram uma linhagem dessa bactéria diretamente da mosca da fruta (a famosa Drosophila melanogaster). Eles observaram que a bactéria inibia o crescimento do vírus da dengue, pouco alterando as condições de saúde do mosquito. Na fase seguinte da pesquisa, eles soltaram 300 mil mosquitos infectados com a bactéria, em condições de campo, em remotas cidades da Austrália. E após cinco semanas observaram que quase todos os mosquitos selvagens estavam infectados com a bactéria.
Tem havido grande interesse em desenvolver-se e disseminar mosquitos que não transmitam dengue, mas o grande problema é que tais mosquitos modificados tendem a ter menor “fitness” do que o mosquito selvagem. Vamos novamente consultar o Glossário de Ecologia e Ciências Ambientais para saber o que é “fitness”, em ecologia:
“FITNESS”
O fitness (palavra ainda sem equivalente preciso em português) de um organismo, ou o seu fitness reprodutivo, diz respeito ao seu potencial genotípico, em relação aos outros componentes da população, em deixar descendência viável; ou seja, é uma espécie de probabilidade em deixar descendente ao longo de grandes períodos de tempo. Embora um indivíduo nasça e morra dentro de certo padrão da população à qual pertence, ele não possui uma natalidade e uma mortalidade rigorosamente definidas. Alguns autores admitem que o termo equivalente em português seja aptidão, que é uma qualidade inata ou adquirida para exercer determinada atividade.
E assim sendo, esse mosquito modificado tende a perecer quando misturado com o tipo selvagem.
Embora não se saiba com certeza como Wolbachia seja capaz de suprimir o vírus do mosquito da dengue, os pesquisadores presumem que essa bactéria poderá incrementar o sistema imunológico do mosquito, habilitando-o a combater o vírus ou então a própria bactéria compete por moléculas-chave, como ácidos graxos que sejam necessários ao vírus para se multiplicar dentro do A. aegypti. Pensa-se que possa ser um desses mecanismos, ou ambos.
Um dos co-autores desses estudos, Ary Hoffman, afirma sobre a necessidade de se investigar a efetividade dessa nova estratégia em escala global. Estão previstos experimentos para se executar, no próximo ano, no Vietnã, Tailândia, Indonésia e Brasil.
Num blog da revista Americana Scientific American pode também ser vista mais informações sobre este assunto:
http://blogs.scientificamerican.com/creatology/2011/08/27/the-fight-against-dengue-fever-continues/

13 de ago de 2011

POLUIÇÃO, ESTRESSE, PRESSÕES PSICOSSOMÁTICAS, AFLIÇÕES VÁRIAS, MORTES INJUSTIFICÁVEIS... ESTAMOS APARELHADOS PARA SUPORTAR?

Relendo um artigo sobre bebês prematuros, divulgado pela “Environmental Health Sciences” (Ciências da Saúde Ambiental) veio-me à mente a pergunta acima, relacionada de certa forma à ecologia urbana. Nessa publicação é relatado resultado de pesquisa realizada por pesquisadores da Universidade da Califórnia na região de Long Beach/Orange County, nos Estados Unidos.
Eles observaram que quando as mulheres grávidas se expõem à poluição atmosférica em locais próximos a vias de grande movimento de tráfego, elas têm maior probabilidade de darem à luz bebês prematuros e sofrerem de pré-eclampsia (hipertensão, edema, proteinúria gestacional). Ao revisarem registros de nascimentos de mais de 81 mil bebês, os pesquisadores observaram que o risco das gestantes terem um bebê antes das 30 semanas de gestação aumentou em 128 por cento para as mães que vivem próximo aos piores índices de poluição atmosférica causada por tráfego pesado. E o risco de pré-eclampsia aumentou 42 por cento para essas mães. Os médicos afirmam que os fetos vivem uma fase sensível do desenvolvimento, sendo vulneráveis às substâncias tóxicas inaladas pelas suas mães.
Esta é uma revelação que se acrescenta às demais reações negativas atribuídas à poluição atmosférica, ligadas às doenças respiratórias e cardiovasculares. Os bebês estudados foram os nascidos entre 1997 e 2006. É bem possível que hoje a situação esteja bem pior! Nos Estados Unidos, o “país das estatísticas”, tem-se conhecimento sobre isso de maneira segura. E no Brasil?
Orientações preventivas, nesses casos, praticamente não surtiriam efeito. A não ser, talvez, mudar de lugar de residência, ou evitar se locomover pelas vias mais poluídas, ou trancar-se em casa nos horários de maior pico de tráfego... ou usar máscaras nesses horários ou nas locomoções.
Após o nascimento não é raro se observar o aumento de crianças com problemas respiratórios, como asma, principalmente quando há mudança climática brusca ou extrema, associada aos picos de poluição.
Durante o crescimento o ser humano é bombardeado por inúmeros outros fatores estressantes, a maioria de origem antrópica, que vão dos ruídos constantes os mais diversos (motores de veículos, buzinas etc.), aos cuidados que se devam ter com o tráfego, olhar por onde se pisa (principalmente no Rio de Janeiro, onde os bueiros explodem) e por debaixo de onde se passa; e também por quem se acompanha e quem se vai encontrar pela frente, ou quem surge por trás; e ainda saber distinguir o que se pode tocar, comer, beber e o que não se pode. E não devemos esquecer-nos de mencionar as balas perdidas e as bem direcionadas para nós vítimas dos assaltantes, fatos estes hoje muito comuns aqui no Brasil varonil! Enfim, viver é um risco! E mais ainda aqui, no Brasil varonil.
Chama-me a atenção em especial o fato de que nossa sociedade está estruturada para atender os “normais”, primordialmente os adultos! Aqueles com necessidades especiais e as crianças e os idosos, pelo menos no nosso Brasil varonil, muito raramente têm tratamentos específicos. Os sons são altos, o movimento de veículos é sem limites (se assim não o fosse os carros teriam limite de velocidade máxima de 80 km, exceto os de serviços especiais como as ambulâncias, carros da polícia e dos bombeiros); e a prioridade seria dos transportes coletivos. As calçadas não são dimensionadas nem mantidas em bom estado para permitir circulação segura de pedestres.Nem todos os cruzamentos de ruas nos sinais de trânsito têm faixas para pedestres; e naqueles que têm, tais sinais não lhes asseguram tempo para travessia. Dados da seguradora que administra o DPVAT, seguro obrigatório: 160 pessoas morrem por dia no trânsito do Brasil (X 365 dias = 58.400 por ano). A maioria, entre 21 e 30 anos de idade, como vítimas da combinação imprudência, álcool, velocidade. No conflito do Iraque, de 2003 para cá, em oito anos portanto, morreram mais de 98.400 civis (e 4.200 soldados americanos e 175 soldados britânicos). No Brasil, nos mesmos últimos oito anos, ocorreram 254 mil mortes no trânsito. Donde se conclui claramente, que é mais seguro viver lá!!! Este, que é apenas um dos nossos conflitos trágicos, deixa o Iraque com ares de “principiante em tragédias”. E mais: de acordo com o Instituto Sangari (Mapa da Violência 2010: Anatomia dos Homicídios no Brasi)l comprovou-se queda no índice de assassinatos entre 1997 e 2007. Ainda assim, mais de 500 mil pessoas foram vítimas desse tipo de crime no país na década analisada. Mais um dado confirmando que o Iraque é mais seguro!!!
Espaço para lazer dos jovens, só no meu tempo de juventude (nas décadas de 1950-60), quando brincávamos nos terrenos ainda vazios de João Pessoa. E durante nossas férias ainda conseguíamos circular de bicicleta por muitas áreas “a serem exploradas”. Hoje, as poucas existentes são de circulação proibida. Ou se algum jovem, ou mesmo adulto, desejar por ela se arriscar a ser assaltado (ou morrer), é só dar um passeio, por exemplo, no “orgulho de preservação da Natureza em João Pessoa: a Mata do Buraquinho”. Nos seus mais de 400 hectares de remanescente de mata atlântica, em plena zona urbana desta capital, escondem-se bandidos, drogados... enfim, os famosos malfeitores dos novos tempos modernos (quiçá fossem os tempos modernos da época de Charles Chaplin!). Lá eu não consigo levar meus alunos, a não ser com escolta policial (todos em fila indiana, sob os olhares vigilantes dos policiais florestais).
E as autoridades governamentais, de todos os setores, pensam que uma nova lei daqui e outra dali... (hoje em dia boa parte delas protegendo o malfeitor) evitarão que nossos jovens se destruam ou aniquilem pessoas de todas as idades e segmentos sociais. Nem criancinhas escapam das barbáries. Espaço apropriado e atividade sadia são palavras-chave de resposta a mudanças. Investir em educação objetivando reintegrar os jovens não é gasto. É investimento que resultará em economia em vários setores dos serviços sociais (segurança e saúde são os principais). Se fosse aplicada a força de trabalho de milhares de apenados (de penas leves, é claro) que são beneficiados pelos indultos (natal e ano novo, dia das mães, dia dos pais, semana santa...) na revitalização de nossos ambientes naturais, eu acredito que a mãe Natureza retribuiria com melhor qualidade de vida para toda a sociedade. Resultado bem melhor do que o choro das mães que são preteridas pelos filhos que se aproveitam do indulto para praticar mais crimes.