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13 de mai de 2009

AQUECIMENTO GLOBAL E SAÚDE

Em sua edição eletrônica de março/2009, a revista norte-americana “Scientific American Earth 3.0” (assim denominada), divulga artigo da Dra. Katherine Shea, Prof. Adjunto de saúde materna e da criança, da Universidade da Carolina do Norte, sob o título “Global Warming and your Health” (Aquecimento Global e sua Saúde). Este assunto, segundo a própria autora, é “uma ladainha dos impactos diretos associados à mudança global”. Esta autora trata sobre a incidência de asma e alergias, ambas ligadas a problemas respiratórios. Associar aquecimento global a doenças torna-se necessário considerar os seguintes ângulos de abordagem: (i) prevalência de doenças como essas estudadas por SHEA, asma e alergias respiratórias, e (ii) disseminação de doenças infecciosas, como foi abordado por “LAFFERTY, K.D. (2009) The ecology of climate change and infectious diseases. Ecology, 90 (4): 888–900”.
Comecemos por este último aspecto, abordado por LAFFERTY (2009), que analisa com significativo número de citações bibliográficas, as relações entre clima e ocorrência e dispersão de doenças infecciosas. Ele considera que enquanto as projeções iniciais sugerem aumentos dramáticos futuros na faixa geográfica das doenças infecciosas, modelos recentes prevêem mudanças nas faixas de distribuição de doenças com pouco aumento na área de distribuição. E uma vez que muitos fatores podem atuar sobre doenças infecciosas, alguns poderão obscurecer os efeitos advindos do clima. Mas é importante observar a afirmação de LAFFERTY, de que a alta diversidade de doenças infecciosas nos trópicos poderia ser resultante da alta diversidade de seus vetores. E ainda: a inabilidade de doenças tropicais de seres humanos em disseminar, a partir dos trópicos para as regiões temperadas pode se dever à alta proporção de doenças tropicais que têm vetores específicos (80% tropicais versus 13% temperados) e/ou reservatórios animais silvestres (80% tropicais versus 20% temperados). Muitos trabalhos são citados por LAFFERTY (2009) reportando sobre aumento de temperatura beneficiando os vetores de doenças, como por exemplo: experimento com a esquistossomose, causada pelo parasita trematódeo, mostrou que as cercarias são sensíveis ao aumento de temperatura (conforme relatado por “POULIN, R. (2006) Global warming and temperature-mediated increases in cercarial emergence in trematode parasites. Parasitology, 132: 143–151”).
Os insetos vetores de doenças, como os mosquitos da malária e das febres amarela e dengue, são bastante sensíveis às condições meteorológicas (conforme relatado por “BRAASCH, G. (2007) Earth Under Fire: How Global Warming is Changing the World. Berkeley, University of California Press, 267p.” e já comentado numa das postagens mais antigas neste blog de ecologia). Apenas um exemplo mais recente: uma ressurgência da dengue na América Latina atingiu Buenos Aires. Em 09/04/2009 foram confirmados mais de 150 casos nessa capital (segundo divulgação “online” de NATURE (2009)).
E agora, alguns trechos do artigo objeto desta postagem. Vejamos o que afirma a Dra. SHEA sobre a asma e alergias associadas ao aquecimento global: (a) as pessoas mais vulneráveis a esses dois males são os idosos, as crianças e os enfermos; (b) esses males são epidêmicos nos países desenvolvidos, cujo número de afetados é crescente; (c) somente nos EUA pelo menos 50 milhões de pessoas sofrem de alergias, a um custo anual de U$18 bilhões ao sistema de saúde; (d) a asma afeta um em cada 14 americanos adultos e um em 10 crianças, sendo neste caso a principal responsável pelas ausências escolares; (e) quanto mais expostas as pessoas estão ao ar poluído e grãos de polens, piores são os sintomas, aumentando a probabilidade de desenvolverem processos alérgicos.
Observa ainda a Dra. SHEA: a mudança climática tem se mostrado (por diversos pesquisadores) como causadora do aumento nas concentrações de poluentes atmosféricos que desencadeiam essas doenças, principalmente o ozônio e os grãos de polens. O ozônio é o componente primário do “smog” ("smoke" + "fog" ou seja, fumaça + nevoeiro, comuns em cidades como Los Angeles (EUA) e Londres (Inglaterra). A exposição ao ozônio durante a infância pode retardar o crescimento e desenvolvimento pulmonar e contribuir para novo aparecimento de asma, que pode surgir em qualquer idade. A maioria dos precursores do ozônio provém da queima de petróleo e carvão mineral, surgindo da ação dos raios solares atuando sobre esses poluentes.
Sobre as ações dos grãos de polens a Dra. SHEA relata que a “febre do feno” potencializa ataques de asma e que há vários estudos apontando que o aumento global de temperatura provoca antecipação e alongamento da estação de produção de polens. E ainda: há certas plantas, como a erva-de-santiago ou tasneira (“ragweed”) que produz substâncias alergênicas em quantidades mais elevadas, agravando-se a asma em pessoas mais sensíveis, estando no ar concentrações mais elevadas de dióxido de carbono (um dos gases mais eficientes do aquecimento global). Conclui ela: não há dúvida de que o aquecimento global promove sofrimento respiratório. Pessoas em risco devem evitar sair de casa e evitar esforços físicos nos dias críticos, quando há informações sobre ar poluído e “infestado” com grãos de polens. Orientação às pessoas sobre como entender os índices divulgados sobre poluição e agentes da febre do feno, e ainda, e não menos importante sobre atendimento e medicação adequada é fundamental.
Não há exagero em lembrar que a onda de calor que atingiu a Europa tenha coincidido com a morte de umas 52 mil pessoas no verão de 2003; na França, mais de 10 mil, onde em Paris a temperatura alcançou 40 graus Celsius; e quase outras tantas na Itália.
Sabemos que o aquecimento global tem se mostrado como fator de preocupação maior no hemisfério norte, principalmente nas grandes latitudes. E nós que vivemos em latitudes mais baixas, mais próximo do equador e numa região naturalmente mais quente, estariamos imunes a efeitos desse tipo, com o aquecimento global??? Precisamos realizar estudos, antes de responder!

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