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2 de out de 2011

APRENDENDO COM A NATUREZA – Capítulo III

Na interface Natureza – Qualidade de vida, água, alimentos e energia, são a base da pirâmide da sustentabilidade.

Este brevíssimo ensaio tem por finalidade principal, apenas, chamar a atenção dos leitores sobre uma observação feita pelo Dr. David Servan-Schreiber, em seu livro: “Anticâncer: prevenir e vencer usando nossas defesas naturais” (2009). 2ª. Ed. Rio de Janeiro, Fontanar/Edit. Objetiva, 312p.; adquirido por indicação da competente profissional dos livros, a amiga Julyana Lisboa da Livraria Saraiva, JP/PB; preço: R$39,90, em 18/08/2011). Valeu o investimento!

Meio ambiente e adaptações. O autor faz a seguinte observação (p. 85): “Nossos genes se constituíram há muitas centenas de milhares de anos, na época em que éramos caçadores e colhedores. Eles se adaptaram ao meio ambiente de nossos ancestrais, e especialmente às suas fontes de alimentos. Só que nossos genes evoluíram muito pouco. Hoje, como ontem, nossa fisiologia espera uma alimentação semelhante à que tínhamos quando comíamos os produtos da caça e da colheita: muitos legumes e frutas, de tempos em tempos algumas carnes ou ovos de animais selvagens, um equilíbrio perfeito entre os ácidos graxos essenciais (ômega-6 e ômega-3) e muito pouco açúcar e farinha nenhuma (a única fonte de açúcar refinado para os nossos ancestrais era o mel, sendo que eles não consumiam cereais)”.
O primeiro ser humano, a revolução agrícola e os novos alimentos. Algo “muito importante” é apontado como de consequências imprevisíveis, pelo autor: hoje, 56 por cento de nossas calorias provêm de três fontes que NÃO EXISTIAM quando nossos genes se desenvolveram: açúcares refinados (cana-de-açúcar, beterraba, xarope de milho, de frutose etc.), farinhas brancas (de trigo principalmente) e óleos vegetais (soja, girassol, milho e agora a já famigerada gordura trans). Todos de aparecimento muito recente [Nota: presume-se que a revolução agrícola tenha ocorrido há uns 10 mil anos; e um dos primeiros seres humanos, o Homo ergaster (erectus) já existia há cerca de 1 milhão de anos; ver Richard Dawkins, “A grande história da evolução”, 2009, São Paulo, Cia. das Letras, 759p. Preço: R$67,00].

Mostra o Dr. David Servan-Schreiber, citando muitos resultados de pesquisa, as relações entre esses novos alimentos e vários problemas de saúde humana, como por exemplo: 1) epidemia de câncer no mundo ocidental: pesquisa publicada em “Science” revelou que o risco de mulheres portadoras de genes de risco BRCA-1 e BRCA-2 [“breast cancer” = câncer de mama; genes supressores de tumores de mama e ovário] desenvolverem câncer de mama quase triplicou entre aquelas com menos de 50 anos após a segunda guerra mundial, quando comparadas a mulheres nascidas antes da guerra; 2) a OMS tornou público na revista “Lancet”, em 2004, que o câncer em crianças e adolescentes é um dos que registraram o aumento mais elevado desde 1970; 3) ocorrência de picos de insulina (por ingestão excessiva de açúcar) e de IGF [do inglês: “insulin-like growth factor”, uma proteína que estimula crescimento de células cancerosas e sua capacidade de invadir tecidos vizinhos], em decorrência de ingestão exagerada de açúcares e farinhas brancas; 4) o desequilíbrio da nossa alimentação na ingestão de ômega-6 (ácido graxo responsável pela estocagem de células adiposas, promovendo rigidez das células, coagulação e respostas inflamatórias às agressões externas) e ômega-3 (que atua na constituição do sistema nervoso e tem ação contrária: torna as membranas celulares mais flexíveis, acalmando as reações inflamatórias); 5) os riscos dos alimentos industrializados: dentre os muitos listados, apenas destaques para o surgimento das gorduras trans, dos óleos vegetais hidrogenados e da margarina, substituindo a manteiga em inúmeros alimentos, como biscoitos, pizzas prontas, batatinhas, pipoca (preparo em micro-ondas)... feita com óleos de girassol que contém 70 vezes mais ômega-6 do que ômega-3 ou de soja, com sete vezes mais ou de canola, com três vezes mais; 6) por último (talvez o perigo maior, afirmo eu) a contaminação dos alimentos por produtos químicos tóxicos (provenham eles de agrotóxicos ou defensivos agrícolas, ou de poluentes os mais diversos); isso sem contar os milhares de componentes de objetos aparentemente inofensivos à saúde (plásticos, detergentes, desinfetantes, cosméticos, etc. etc. ...) e os aditivos alimentares ─ corantes, aromatizantes, conservantes, antioxidantes, estabilizantes, acidulantes...
Meio ambiente e doenças. A ligação com a questão da qualidade ambiental começa com as alterações que causamos à cadeia alimentar, cuja causa principal é inicialmente o aumento da demanda por alimento, principalmente laticínios e carne bovina (devido ao crescimento populacional humano, no pós-guerra) seguido pela modernidade (alimentos industrializados são de uso prático). Com isso, mostra o autor que até as vacas e as galinhas foram obrigadas a consumir “junk food”; isso mesmo! Vacas e galinhas foram obrigadas a consumir alimentos desequilibrados nas proporções naturais de ômega-6 (em excesso) e ômega-3 (reduzido). Uma “necessidade”, quando passaram da criação de soltas no pasto, para confinadas; ou seja, as pastagens naturais e forragens foram substituídas por milho, soja, trigo... em rações.
Geografia do câncer. O Brasil é citado pelo autor a partir da observação no item “Desintoxicar a Alimentação” (p. 101) de uma pesquisadora: “... veja o caso muito curioso do Brasil, cujo nível de desenvolvimento ainda é baixo, mas cuja taxa de câncer de mama é equivalente à dos países ocidentais mais industrializados. Muitos de nós se perguntam se esse fenômeno não se deve ao consumo muito elevado de carne ─ aproximadamente três vezes por dia” ... Os cânceres de seio, próstata e cólon são típicos de países industrializados (nove vezes mais nos Estados Unidos e Europa do que na China, Laos e Coreia; e quatro vezes mais do que no Japão). No entanto, procede (e muito!) a observação de um oncologista (p. 80): é preciso não se deixar enganar pelos alarmistas; ao contrário, é necessário intensificar a pesquisa nos dois mananciais da oncologia moderna: diagnóstico precoce e tratamento do câncer. Embora não se possa ainda provar todas as relações diretas de certos alimentos com as doenças que nos afetam, podemos no entanto concluir, que ao desequilibrarmos nossa alimentação estamos infligindo aos nossos organismos fatores de possíveis transformações para os quais não estamos geneticamente preparados.
Os três principais tipos de problemas (na vida humana). Quanto à extensão e dificuldade de compreendermos este problema, vejam amigos leitores em que tipo de problema (segundo classificação de certo autor) este tema “alimentação e doenças” poderia se encaixar: são três os tipos de problemas que nos afligem 1) problema simples, como por exemplo fazer um bolo (basta seguir a receita); 2) problema complicado, como viajar à lua (dependerá de muita tecnologia); e 3) problema complexo, como por exemplo, educar os filhos (“cada um com seu cada qual”; gostam de dizer os baianos).

E devido a tal complexidade, talvez venha depois um quarto capítulo com este tema, nesta série!

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