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7 de dez de 2014

FLORESTA AMAZÔNICA E O CLIMA

Divulgado no AGRISSÊNIOR NOTÍCIAS - Pasquim informativo dos (ex-) pesquisadores/servidores da CEPLAC (BA)

FLORESTA AMAZÔNICA E O CLIMA: HÁ CONTROVÉRSIAS!?

Breno Grisi
Professor de ecologia, autor do blog
www.ecologiaemfoco.blogspot.com 

Para início de conversa, explico que escrevo este sucinto comentário sobre a Amazônia e o clima no Brasil, não como especialista em clima, mas apenas como ecólogo preocupado com afirmações do tipo "A afirmação de que as secas da região Sudeste estão sendo causadas pelo desmatamento da Amazônia é leviana, não tem base científica, além de ser contrária ao bom senso...". Como professor de ecologia, sinto-me no dever de esclarecer fatos revelados pela ciência, contribuindo para que o maior número de brasileiros possa entender que extremismos não combinam com desenvolvimento sustentável (tão falado e pouco e mal praticado), tais sejam os dos defensores dos "santuários (termo há muito fora de moda) ecológicos amazônicos" e os adeptos do "agronegócio a qualquer custo". Vários trabalhos teórico-práticos têm sido desenvolvidos com resultados positivos, em pecuária moderna na Amazônia com integração lavoura-pecuária-floresta (já com política governamental implantada para sua prática). Da mesma maneira foi demonstrado por lideranças pecuaristas em Paragominas (PA), que não há necessidade em se expandir a pecuária na Amazônia, mas sim aplicar técnicas já conhecidas de manejo de pastagens e revitalização de solos degradados. Assim atestam membros do Sindicato dos Produtores Rurais de Paragominas. E agora, em evidência, o porquê da importância em se manter a floresta em pé, por seu papel relevante e provavelmente insubstituível, em grande parte das chuvas em outras regiões do Brasil e alguns países do sul do nosso continente. Isso sem precisar detalhar outros serviços ambientais que a floresta nos presta, como biodiversidade, fixação do gás carbônico (amenizando o aquecimento global), potencial fornecedor de fármacos, fibras e madeiras... As comprovações científicas sobre a importância da floresta amazônica na ciclagem da água, sua influência nas precipitações pluviais na região norte, se iniciaram com as pesquisas pioneiras de Enéas Salati. Em meados dos anos de 1970, o trabalho pioneiro de Enéas Salati (Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA/ Esalq), Piracicaba, da Universidade de São Paulo) demonstrou inequivocamente que "a floresta não é consequência do clima, mas o atual equilíbrio do clima é modelado pela floresta".

A umidade proveniente do Atlântico tropical que se dirige para a Amazônia é reciclada ao longo do seu caminho para os Andes, caindo sob a forma de chuva. Grande parte dessa umidade retorna para a massa de ar por meio da evapotranspiração das superfícies complexas da floresta. Quando a umidade colide com as paredes elevadas dos Andes, uma grande quantidade se precipita como chuva e alimenta a Bacia Amazônica. No entanto, parte da umidade é desviada. A soja do Mato Grosso se beneficia da chuva gerada no Amazonas e em outras partes da Amazônia brasileira. Na realidade, esse "subsídio" natural se estende até o norte da Argentina, favorecendo tanto a agroindústria como a produção de energia hidrelétrica, por onde vai passando. Forma o que hoje está sendo chamado de "rios voadores". Na verdade, esta é a denominação de projeto financiado pela Petrobrás, sendo conduzido pelo engenheiro e explorador ambiental Gérard Moss e liderado por Enéas Salati. Durante dois anos, Moss, em seu avião, acompanhou o trajeto das correntes de ar que circulam na Amazônia, e investigou os itinerários do vapor d ́água evaporada na região, coletando amostras em Belém, Santarém, Manaus, Porto Velho, Alta Floresta, Cuiabá, Uberlândia, Londrina, Ribeirão Preto e Piracicaba. Um “rio voador”, que percorre os céus da Amazônia e chega a São Paulo depois de fazer a curva na Cordilheira dos Andes, pode ter a vazão de todos os rios do Centro-Oeste, Sudeste e Sul, ou seja, de cerca de 200.000 m3 de água por segundo. Enéas Salati usou a técnica isotópica, e conhecimentos meteorológicos, para demonstrar que determinados isótopos de hidrogênio (deutério) e oxigênio (O18) presentes nas moléculas de água servem como “assinatura” do percurso realizado pelo vapor de água, comprovando sua origem na Amazônia. O líquido analisado no CENA em Piracicaba é uma base de dados também acompanhada pelo professor Pedro Dias, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP. Segundo ele, é importante lembrar que há outras variáveis no estudo, pois existem fluxos de vapor d’água provenientes de outras regiões - especialmente do Atlântico - que exercem um papel fundamental no regime de chuvas. Além disso, nem toda a água que sai da Amazônia transforma-se em chuva no sul do continente. “Apenas 50% do total do fluxo de vapor d’água que entra pela floresta amazônica na altura de Belém está disponível para cair como chuva. Este fluxo é composto pelo vapor primário, que vem do oceano, e pela evaporação e transpiração das plantas”, explica o professor Salati. Pedro Dias afirma que ainda é difícil prever os efeitos do desmatamento no regime de chuvas, mas eles podem incluir tanto secas quanto enchentes em outros Estados. Acredito que esses estudos sobre a influência da floresta amazônica no clima de outras regiões do continente latino-americano tem base científica e esta é uma forte e irrefutável razão para sua conservação.

Finalizando, sugiro aos interessados neste tema a leitura do relatório do climatologista Antônio Donato Nobre (INPE e INPA) "O Futuro Climático da Amazônia" (http://www.ccst.inpe.br/wp- content/uploads/2014/10/Futuro-Climatico- da-Amazonia.pdf). 

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