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6 de abr de 2008

“EFEITO BORBOLETA”: MOSQUITOS, DESEQUILÍBRIO ECOLÓGICO, AUTORIDADES INCOMPETENTES, CRIANÇAS MORTAS

Acredito que o nosso drama atual, o caso da dengue, mereça algumas considerações sob os aspectos ambiental e socio-político-cultural. Aliás, desenvolvimento sustentável (expressão sempre presente na verborragia de muitos políticos) só se faz com os três tipos de desenvolvimento: ecológico, econômico e social; que só podem ser praticados se fundamentados num processo educativo eficiente e efetivo. Em ecologia, o “efeito borboleta” é uma alusão à possibilidade de que o simples bater das asas de uma borboleta poderá iniciar uma “cascata de mudanças altamente imprevisíveis num ecossistema inteiro ou até mesmo em todo o planeta”. Embora não se possa afirmar que haja uma relação direta, vale a pena pensarmos um pouco sobre os quatro elementos do título acima, numa analogia com o “efeito borboleta”.

Vamos começar com os mosquitos. Hoje, poucos cientistas duvidam que a atmosfera do nosso planeta está se aquecendo. Os insetos vetores de doenças, como os mosquitos da malária e das febres amarela e dengue, são bastante sensíveis às condições meteorológicas. O mosquito Anopheles, transmissor do parasita da malária (o protozoário Plasmodium falciparum) causa surtos da doença somente nos locais onde a temperatura comumente exceda os 15oC. Da mesma maneira, o Aedes aegypti, da febre amarela e da dengue, transmite os respectivos vírus, nos locais onde a temperatura raramente cai abaixo dos 10oC. Os mosquitos proliferam mais rápido e picam mais, quando o ar é mais quente. Ao mesmo tempo, o calor mais intenso acelera a taxa em que os agentes patogênicos se reproduzem e amadurecem. Exemplo: a 20oC o protozoário da malária leva 26 dias para se desenvolver completamente, mas a 25oC ele só precisa de 13 dias para o seu completo desenvolvimento. Para os mosquitos e respectivos agentes causadores de doenças, protozoário da malária e virus da dengue, o Brasil “é um paraíso tropical”. Será que o mosquito fixou residência permanente no nosso meio??? Do jeito como procedemos, penso que a resposta é SIM.

Estima-se que a dengue aflige entre 50 milhões e 100 milhões de pessoas nos trópicos e subtrópicos, principalmente nas áreas urbanas e suas periferias. Nos últimos 10 anos ela vem aumentando seu raio de ocorrência nas Américas e já alcançou Buenos Aires no final dos anos de 1990.

Agora, o desequilíbrio ecológico. Sapos e rãs, importantes predadores naturais dos mosquitos, vêm sofrendo reduções em suas populações em diversos ecossistemas de nosso planeta. Causas maiores: 1) destruição de seus habitats naturais, determinada pelo avanço do ser humano nas expansões urbanas e ocupações desordenadas decorrentes da expansão agrícola e 2) mortandade dos seus embriões; há observações comprovadas de que eles são extremamente sensíveis à ação da luz ultravioleta, que nos atinge, penetrando através do buraco da ozonosfera (o homem tornou-se poderoso: aquece o mundo e destroi a camada de ozônio). Somem-se a isso, as barbáries cometidas pelo ser humano, como na nossa cultura popular, que sempre considerou esses anfíbios como sendo “bichos nojentos”, principalmente o sapo, caçado, perseguido por crianças com suas atiradeiras, enxotado dos jardins e quintais e até trucidado na macumba e bruxaria, onde era utilizado (será que ainda o fazem???) para amaldiçoar alguém, cujo nome era escrito num pedacinho de papel que era colocado dentro de sua boca e esta costurada!!! Ou despejar sal em suas costas, até vê-lo morrer! Muitos sapos e rãs foram capturados, para deles extrair-se as peles e serem industrializadas; das rãs come-se a carne. Nunca se divulgou na nossa cultura que sapos e rãs são os maiores predadores de insetos que a Natureza criou! Lagartos, lagartixas e aves, também participam dessa tarefa de predação de insetos.

Surtos de insetos têm sido registrados periodicamente no Brasil, como a praga de gafanhotos nos canaviais de Alagoas e Pernambuco (seus predadores, siriema e tejus e tejuassus, vêm sendo dizimados para saciar a fome de pessoas desassistidas das zonas rurais); o potó (inseto coleóptero que causa queimadura na nossa pele) já causou problemas em algumas cidades de Pernambuco; nos quintais não se criam mais galinhas, eficientes predadores de escorpiões. Fatos estes que corroboram um princípio em ecologia: “não existem pragas, mas sim, desequilíbrio ecológico”.

Esta “seleção negativa” tende a se agravar, pois o ser humano, espécie egocêntrica (ele, só ele; acima de tudo e de todos) não se conscientiza em reservar espaço nem recursos para seus demais companheiros de convivência ambiental; mesmo que estes lhes sejam benéficos! Até gatos e cães sofrem amargamente nos nossos ambientes urbanizados!

E last but not least, algumas poucas palavras sobre nossas autoridades. Nossa zona rural vive entregue à própria sorte há muitos anos. O homem do campo agora é favelado da periferia urbana; misturando-se com o lixo, ajudando os mosquitos a proliferarem descontroladamente; e ele próprio, pagando com a baixa qualidade de vida e a morte, o descaso gerado pelos governantes. Se estes dizem que estão tomando as “devidas providências” mas o problema não se resolve, a interpretação fatídica é: são incompetentes.

Penso ser importante que se preparem professores capazes de formar nas nossas escolas, alunos conscientes de que todo brasileiro tem direito a uma qualidade de vida digna de ser humano. Um direito, que está muito acima do contentar-se com auxílios com fins eleitoreiros. Seja no caso da dengue, da malária, da leptospirose, das doenças veiculadas pela água etc, o tão falado desenvolvimento sócio-econômico de nosso país implica em se praticar eficientes sistemas de educação, conservação ambiental, vigilância sanitária e saúde pública. Pelo menos isso! Bases consistentes para se alcançar um futuro com qualidade.

É uma lástima que nossas autoridades não tenham aprendido que meio ambiente e vetores de muitas doenças se interrelacionam. Lástima maior é o fato de que entra governo-sai-governo e a saúde pública, incluindo a medicina preventiva, e a educação nunca foram prioridade neste belo país tropical (sem terremotos, sem tsunamis, sem furacões, mas ainda com muita ignorância e muitos mosquitos!!!). É deprimente ter que admitir que agora, só nos resta esperar que apareça algum “iluminado” que enxergue tudo isso e invista nesses setores. O retorno, viria com o tempo, formando-se uma sociedade que SABERÁ EVITAR QUE SUAS CRIANÇAS MORRAM POR CAUSA DE UM MOSQUITO.

E o “efeito borboleta”? É esta brasileiríssima equação simples: ignorância + autoridades incompetentes = crianças mortas.
Breno Grisi
Professor de Ecologia

Um comentário:

Ugly Betty disse...

Boa tarde, professor Breno!
Eis meu comentário, quase um ano depois de seu post:

Excelente texto! Difícil encontrar um que trate da ciência fundamentada no contexto social.

Já adicionei aos meus favoritos. Um abraço!