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17 de mar. de 2011

NOVO CHERNOBYL: APÓS DESASTRES E TRAGÉDIAS É SEMPRE HORA DE REPENSAR

Alguns breves comentários sobre a tragédia japonesa. Não há nenhum exagero no título deste curto ensaio sobre os cataclismos e as tão clamadas catástrofes naturais, que temos vivenciado na primeira década do século XXI e início desta segunda década. Vejamos o exemplo atual, com esta breve história da tragédia no Japão, fundamentada em narrativas divulgadas em www.newscientist.com, em 16/março/2011 e as notícias recentes em outras fontes (BBC, CNN, jornais internacionais...).
É impressionante como tanto as autoridades governamentais favoráveis ao uso da energia nuclear como especialistas e defensores de sua utilização MENTEM! É impressionante como a tecnologia da fissão atômica e a exploração de seu uso para gerar energia elétrica, constituindo-se portanto em tecnologia “avançadíssima”, para evitar uma tragédia de proporções imensuráveis, tenha que utilizar baldes d’água sendo atirados do ar, por helicópteros, para resfriar os reatores que estão prestes a explodir!!! Igualzinho ao que se faz para apagar incêndios em florestas! Impressiona-me também o fato de que os defensores do uso da energia nuclear aleguem que essa tragédia no Japão é “caso isolado”; e que isso aconteceu por causa do terremoto e tsunami. Mais uma mentira! A situação está fora de controle pelas autoridades por que faltou energia elétrica (gerada por outra fonte, talvez carvão mineral) no sistema de resfriamento dos reatores. Uma verdade omitida: o Wikileaks revelou que em 2008 o IAEA – International Atomic Energy Agency advertira as autoridades japonesas que há 35 anos o governo não revisava seu sistema de segurança das mais de 50 usinas nucleares do país (vejam no site: http://www.ipjornal.com/noticias-internacionais/434146_wikileaks-japao-foi-alertado-para-riscos-nucleares-em-caso-de-sismo.html). Vejamos outra precariedade da “segurança”: de acordo com as autoridades japonesas (agência de notícias Kyodo, via BBC de Londres) os bastões do reator número 2 (da usina Fukushima 1) ficaram expostos porque faltou combustível na bomba que jogava água do mar sobre o reator!!! Mas a grande culpa da tragédia é atribuída à Natureza, que é trágica, impiedosa, injusta... e outras baboseiras mais vociferadas pelas incompetentes e inconsequentes, para não dizer IRRESPONSÁVEIS autoridades.
O “poder modificador da Natureza” (e não poder “destrutivo”). 1) A rede de mais de 800 estações de monitoramento de terremotos do Japão possibilitou que a Agência Meteorológica do Japão advertisse que um terremoto estaria atingindo a ilha central de Honoshu com magnitude 7,9 (depois estimado em 8,9 e que no final foi de 9,0, atualizado pelo USGS – United States Geological Survey). 2) E dentro das 48 horas da ocorrência deste terremoto as 1200 estações de GPS já estavam registrando que a crosta (da Terra) na parte central da ilha de Honoshu tinha se elevado 4 metros e moveu todo o Japão em cerca de 2,5 m; o eixo da Terra deslocou-se de sua posição em cerca de 8 cm. 3) Tanto o terremoto no Chile do ano passado (magnitude 8,8) quanto este do Japão, aceleraram deslizamento de geleira na Antártica (meio metro a mais, em cada deslizamento normal).
Segundo pesquisadores do USGS, este terremoto no Japão será um dos mais bem estudados da nossa história. O terremoto levou cerca de 3 minutos e meio para que a área afetada da fossa do Japão completasse sua ruptura ao longo de mais de 400 km. Uma curiosidade: por que tal ruptura não parou nos 100 km? Ou por que não continuou para além dos 1000 km como aconteceu com a falha de Sunda, na costa da Sumatra com o terremoto no oceano Índico em 2004?
O diário de uma possível tragédia nuclear. As duas principais usinas nucleares que estão no centro dessa crise estão situadas entre Sendai (a principal cidade devastada pela tsunami) e Tóquio. A primeira delas é Fukushima Daiichi (ou Fukushima 1) e a outra é Fukushima Daini (ou Fukushima 2). Os reatores 1, 2, 3 e 4 de Fukushima 1 são os mais problemáticos, principalmente o número 2, onde se presume que os bastões de combustível nuclear estejam expostos. Relatos dão conta de que isótopos radioativos de césio-137 e iodo-131 foram detectados em torno dos reatores. Níveis muito altos de radiação (400 millisieverts por hora) foram registrados na usina (2 horas de exposição a essa dose causa enjoos) (um raio-X da coluna vertebral nos expõe a um nível de radiação de 1 millisievert). Há possibilidades de que isótopos de nitrogênio e argônio também tenham escapado. Não há evidências de que os de urânio e plutônio tenham escapado. O iodo radioativo é particularmente danoso para pessoas jovens. Em Chernobyl (1986) ocorreram vários casos de câncer da tireoide. Por isso administra-se a essas pessoas tabletes de iodo, que evitará que o radioativo seja absorvido. O césio radioativo acumula-se nos tecidos moles, enquanto o plutônio acumula-se nos ossos e fígado. Nitrogênio e argônio decompõem-se rapidamente e por isso não oferecem risco à saúde. Estudos conduzidos pelo Escritório Federal Alemão para Proteção Contra Radiação dão conta de que crianças com menos de 5 anos de idade vivendo dentro de um raio de 5 km de distância dos reatores de uma usina nuclear (funcionando normalmente) desenvolveram câncer de medula óssea. Tais crianças tem probabilidade duas vezes maior de ter leucemia. Por que poderia ocorrer explosão? Em altas temperaturas o vapor pode se decompor em hidrogênio e oxigênio na presença de zircônio, metal usado no revestimento do vaso que contém o bastão de combustível nuclear e esta mistura é altamente explosiva.
Three Mile Island em 1979 nos Estados Unidos, Chernobyl em 1986 na Ucrânia e agora (2011) Fukushima no Japão. Quantos mais “acidentes” serão necessários para se repensar sobre investimentos maiores em pesquisas sobre uso da energia solar, eólica e outras fontes alternativas menos perigosas? Alemanha e China estão reexaminando sua política de uso da energia nuclear. E o Brasil? Terá mais 4 usinas nucleares até 2030, conforme o projeto da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN)? E Angra dos Reis, situada em solo instável? Será outro “caso isolado”?

19 de fev. de 2011

FALÉSIA DO CABO BRANCO: O QUE MAIS CONTRIBUI PARA SUA DEGRADAÇÃO?

[No ensejo propiciado por entrevista concedida à TV Clube/Band (grupo Diários Associados, em João Pessoa)volto a postar uma rápida apresentação de vídeos e fotos sobre a problemática ambiental "Falésia do Cabo Branco". A entrevista estará sendo apresentada hoje, domingo (no programa Entrevista Coletiva, após a meia-noite)].
Introdução
. Vejamos inicialmente algumas características da falésia (ou barreira) do Cabo Branco. Pertence à formação Barreiras, de origem terciária, ocorrendo do Amapá ao Rio de Janeiro. É estruturalmente formada de arenitos friáveis (muito frágeis), intercalados com folhelhos mais ou menos decompostos, daí as variações de cores. Na zona entremarés além das rochas areno-ferruginosas há em alguns locais sedimentos calcários e concreções ferruginosas. As poças de marés existentes na zona entremarés (ou estirâncio) são utilizadas por muitas espécies marinhas que ali se refugiam e deixam suas larvas.
Documentação visual (vídeos e fotos). Ao longo de mais de duas décadas venho fotografando a falésia da ponta do Cabo Branco na tentativa de entender as consequências do tratamento que nós paraibanos temos dado a esse importante marco geográfico nacional (ver postagens anteriores neste blog, feitas em 29 e 30/09/2010). Não tenho nenhuma pretensão de apontar a causa principal da degradação da falésia, mas tão somente alertar para o fato de que, tanto as ações do mar "por baixo" na falésia, como as ações antrópicas "por cima" constituem-se em fatores que vem contribuindo (não sei se ambos com igual intensidade), para sua degradação. Na verdade, a sequência de quatro vídeos aqui anexados sugere algumas conclusões: 1) Se o mar realmente exerce ação impactante sobre a falésia, a observação aos pontos de resistência dessa barreira leva-me a acreditar que temos chances de preservá-la se atentarmos para os aspectos que seguem; 2) A proximidade da pista asfaltada à borda superior da falésia vem conduzindo à trepidação e gerando possibilidades de desmoronamento de partes da falésia, em alguns pontos. 3) Acredito que o enrocamento na base da falésia, utilizando os mesmos tipos de rochas areno-ferruginosas que ali ocorrem naturalmente, reforçará a sua proteção à ação impactante do mar.
Em resumo. Devemos ter a mesma preocupação de conservação da falésia com ações de proteção na mesma proporção, ou seja, “tanto por cima como por baixo”!!!
Vejamos os vídeos.




13 de fev. de 2011

UMIDADE RELATIVA DO AR: INSTRUMENTO DE MEDIÇÃO (PSICRÔMETRO) E SEU FUNCIONAMENTO

Conceito de umidade relativa do ar. A umidade relativa do ar é a razão entre a pressão parcial de vapor (pv) exercida pelas moléculas de água presentes no ar e a pressão de saturação (pvs), nessa mesma temperatura, ou seja:
UR% = (pv/pvs) 100
Em termos práticos poderíamos dizer que um certo valor de umidade relativa do ar em dado momento (77%, por exemplo) é a quantidade de vapor d’água que o ar contém como porcentagem do que este ar poderia conter se estivesse totalmente saturado (como num dia de muita chuva).
O instrumento de medição: psicrômetro. Mede-se a umidade relativa do ar utilizando-se o psicrômetro (ou termo-higrômetro), um aparelho simples dotado de dois termômetros: um que é mantido com o bulbo livre (chamado de termômetro de bulbo seco) e um cujo bulbo é envolvido em tecido de algodão, que absorve água (chamado de termômetro de bulbo úmido).
Os instrumentos mostrados no vídeo, para demonstração, são: um psicrômetro de aspiração, de fabricação suíça e um termo-higrômetro do tipo “de parede”, de fabricação nacional (Incoterm, Indústria de Termômetros). Em ambos os aparelhos, recomenda-se usar água filtrada.
Podemos também confeccionar um psicrômetro (tipo “giratório”), adquirindo-se dois termômetros simples (do tipo usado para estufa de laboratório). O termômetro sugerido tem uma faixa de temperatura de -10oC e +50oC. Numa placa (de papelão, por exemplo), fixam-se os dois termômetros com fita adesiva transparente, mantendo-se os bulbos dos termômetros para fora da placa. Envolve-se um dos bulbos em tecido de algodão que absorve água. Os termômetros devem ficar a uma distância mínima um do outro, de 10 cm.
Alguns aspectos teóricos. A quantidade de vapor d’água que possa existir na atmosfera é limitada para cada valor de temperatura. Temperaturas mais elevadas possibilitam que o ar contenha mais vapor d’água do que temperaturas mais baixas.
Pormenores físico-químicos relacionados à psicrometria podem ser vistos em “LOPES, R.P. et al. (2000) Princípios básicos de psicrometria. In: SILVA, J.S. Secagem e armazenagem de produtos agrícolas. 1ª. Ed. Viçosa, Edit. Aprenda Fácil, pp39-62”. Nessa publicação podem ser vistas as equações e representações gráficas relacionadas a todo o processo de medição, incluindo as constantes psicrométricas adotadas para o psicrômetro com ventilação (ar aspirado), que é de 6,7X10-4 oC-1 e para o psicrômetro sem movimentação de ar, que é de 8,0X10-4 oC-1. Há também tabela específica para corrigir o efeito da pressão atmosférica conforme a altitude do local onde esteja se efetuando a medição da umidade relativa do ar.
Procedimento de medição. Ao se efetuar a medição da umidade relativa do ar utilizando-se o psicrômetro ou termo-higrômetro de parede da Incoterm ou o tipo “giratório”, é aconselhável que se faça curtos movimentos de vai e vem com o aparelho (conforme mostrado no vídeo), a fim de se pôr os bulbos em contato com o ar em volta e de se desfazer a camada de saturação de umidade que se forma em volta do bulbo úmido. Deve-se convencionar o tempo e a força do movimento, para que diferentes pessoas que efetuem as medições obtenham resultados similares.
São então anotados os valores de temperatura de ambos os termômetros. E numa tabela psicrométrica obtém-se o valor de umidade relativa do ar. Chamo a atenção para as duas formas de tabela psicrométrica disponíveis. Na tabela que acompanha o psicrômetro da Incoterm observa-se na coluna vertical da esquerda o valor da temperatura do termômetro de bulbo seco e na linha horizontal superior da tabela observa-se a diferença das temperaturas obtidas pelos dois termômetros. Exemplo (mostrado no vídeo): a temperatura do termômetro de bulbo seco foi 27oC e do termômetro de bulbo úmido foi 24oC. Na tabela, na coluna vertical da esquerda, marca-se o valor 27 e na linha horizontal superior marca-se a diferença entre os valores obtidos dos dois termômetros, ou seja, 3. As linhas traçadas a partir do valor 27 (horizontalmente) e do valor 3 (verticalmente), conduzem a um “ponto de encontro” com valor 77. Portanto, a umidade relativa do ar do ambiente sob medição, é de 77%. OBS.: a tabela psicrométrica pode ser obtida na internet.
O significado ecológico de umidade relativa do ar. Deve-se observar que a existência de uma cobertura vegetal densa, uma mata por exemplo, contribui para uma umidade relativa mais elevada do que numa área desnuda ou com vegetação rasteira, como numa pastagem. Observe-se também que nos ambientes com vegetação densa, a temperatura do termômetro de bulbo seco (temperatura do ar) é geralmente mais baixa. O ser humano e grande maioria dos animais e plantas terrestres convivem bem numa atmosfera com umidade entre 60% e 80%, como ocorre no litoral brasileiro em geral e nos locais próximos a ecossistemas com matas. No planalto central brasileiro, com predominância de vegetação não muito densa (campos cerrados) a umidade é mais baixa. Em Brasília (altitude média de 1100 m) a umidade atinge valores muito baixos (menos de 10%, em setembro, por exemplo), tornando o ambiente “inadequado à atividade humana”. Em Brasília, o paisagismo com predominância de gramados, em substituição às árvores do cerrado, não contribui para manter a umidade mais elevada. Muitas plantas do cerrado, não somente árvores como também arbustos, têm sistema radicular profundo (muitas delas com cerca de 20m de profundidade) que atinge o lençol freático, aumentando a evapotranspiração. Nem o lago Paranoá, projetado para aumentar a umidade relativa do ar, surte o efeito desejado!