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26 de jan de 2009

“A TRAGÉDIA DOS COMUNS” ESTÁ CAINDO NO ESQUECIMENTO



“Controverso como somente ele soube ser”, o ecólogo americano Garret Hardin (nascido no Texas em 1915), criou fama não somente pelo seu livro “The Tragedy of the Commons” (A Tragédia dos Comuns), mas também pelos seus ataques ao iminente desastre da superpopulação humana e sua defesa ao best seller “The Bell Curve” (R. Herrnstein e Charles Murray, de 1994) (“A Curva do Sino”, expressão da estatística). Neste livro os autores preconizam que “aqueles muito inteligentes, a chamada elite cognitiva se separará da população de inteligência abaixo da média (uma tendência social perigosa); e discutem ainda sobre as diferenças raciais quanto à inteligência”, conforme sugere o subtítulo desse livro: “Estrutura de Classe e Inteligência na Vida Americana”. Acreditando que cabia ao próprio indivíduo a livre escolha do tempo em deveria morrer, Garret Hardin cometeu suicídio em sua casa, junto com a esposa, em setembro de 2003, aos 88 anos de idade (e sua esposa aos 81 anos). Teve ele sua “própria tragédia”.
Em que pese dúvidas sobre o caráter humanitário de seus pensamentos, nesta sua obra (de 1968) este autor descreve com certa antecipação histórica um dilema sempre presente em nossas ações: “pessoas praticando ações em interesse próprio, destruindo recursos que deveria compartilhar com as demais pessoas, mesmo que esteja perfeitamente claro que tais ações jamais deveriam ser perpetradas”. Na Tragédia dos Comuns, Garret Hardin utilizou-se da expressão “Efeito Catraca” exemplificando com a ajuda em alimentos que é dada a certos povos que morreriam de fome e que, se continuam vivos, se multiplicarão durante os tempos de bonança e assim, tornarão maiores as novas crises que surgirem, uma vez que o suprimento de alimentos não terá crescido. Alguns diriam: raciocínio perverso, mas real. E outros diriam o inverso. Não é à toa a controvérsia que esse autor gerou com suas idéias.
Tal expressão, que nós brasileiros preferimos chamar de “Efeito Cascata”, pode ser ilustrada em termos gerais, pelo fato de que nossas conquistas tecnológicas e de domínio sobre a Natureza nos levam à dúvida sobre se tais conquistas são realmente importantes para o bem-estar humano e uma boa qualidade de vida, ou se simplesmente só fazem aumentar o seu consumo e o lucro para quem as produzem (?). Alguns poucos exemplos: carrões potentes (caminhonetas do tipo Veículo Utilitário Esportivo) que são grandes consumidores de combustível são indispensáveis (?); construir novas hidrelétricas substituindo florestas para atender demanda energética direcionada para aumentar conforto ambiental em casa e no trabalho (ar condicionado, inúmeros aparelhos elétricos...) ou específica para produzir certo produto hoje tido como prático-indispensável (como as latinhas de alumínio, feitas graças à energia gerada por uma usina, como a de Tucuruí) é mais importante do que reavaliar atitudes de uso e redimensionar o sistema energético (?); expandir cultivos, intensificar e comprometer uso de solo de boa qualidade para produzir biocombustíveis é tão (ou mais) importante do que garantir sua perpetuidade para produção de alimentos (?); queimar cultivos para facilitar e reduzir custos [foto acima, à direita] continuará prevalecendo por quanto tempo sobre a colheita natural e plantio direto (que preservam as propriedades naturais do solo) [foto acima, à esquerda] (?); condomínios privados/fechados, granjas, resorts, shopping centers, campos de golfe, serviços personalizados os mais diversos... vêm tomando espaço e recursos do convencional popular que contemplaria a maioria (o comércio de rua, as casas e vilas populares...) (?); as piscinas serão o refúgio inevitável dos que procuram lazer saudável e seguro em detrimento dos ambientes naturais (praias, lagos/lagoas e rios) (?) ...
Iríamos longe numa listagem desse tipo. Infelizmente nós demoramos muito em reavaliar nossos procedimentos diante da nossa rápida evolução em explorar recursos. Eis um exemplo desta nossa lenta evolução cultural, colhido no site do Ministério do Meio Ambiente neste final de janeiro de 2009:
“O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, informou nesta quarta-feira (21/jan/09) que o plano de Zoneamento Agroecológico da Cana-de-Açúcar, a ser anunciado em fevereiro, virá acompanhado de uma novidade: uma lei nacional para a redução progressiva de queimadas de palha nos 7 milhões de hectares de lavouras... . O Brasil estará 100% livre de queimadas em 2020", disse Minc. "Esse é um ganho muito importante porque, na queimada, se elimina matéria orgânica, com perda de biomassa que geraria energia, se emite CO2 e se agride o pulmão dos trabalhadores." A decisão foi anunciada após reunião do ministro com o presidente Lula. Participaram do encontro também os ministros Reinhold Stephanes e Dilma Rousseff, entre outros.
Diante de tanta sabedoria, oriunda de tão eminentes “retardários” (ou seriam “retardados” mesmo???), concluo que esta é a nossa TRAGÉDIA DOS COMUNS. Alguns vão se aproveitando... enquanto Brás é tesoureiro... e quem vier depois que se arranje. De vez em quando é emocionante cutucar o diabo com a vara curta. Pelo menos somos ricos em chistes.

Um comentário:

morlse disse...

excelente texto, elucidou-me algumas questoes a respeito dessa coisa de bem comum e privado. te adicionei aos meus favoritos :)