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23 de jul de 2013

NO MATO GROSSO O AGRONEGÓCIO "DÁ AS ORDENS"

[Relato completo em  http://amazonia.org.br/2013/07/avan%c3%a7o-do-agroneg%c3%b3cio-no-mt-riqueza-excludente/]

Avanço do agronegócio no MT: riqueza excludente

Há muito tempo a substituição do petróleo por combustíveis feitos com plantas é questionada. Apesar do discurso de ser esta uma alternativa contra o aquecimento global, agricultores, movimentos sociais e organizações da sociedade civil vêem no campo os impactos desta produção. Recentemente o Fórum Mato-Grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (FORMAD) lançou uma pesquisa sobre o tema em seminários em Sinop, Cuiabá e Barra do Bugres. E o estudo revela, justamente, a ampla rede de impactos: no estado, se alastram a poluição da água, a concentração de terras, a contaminação e danos à saúde causados pelos agrotóxicos e outros problemas gerados pelos monocultivos de soja e cana-de-açúcar, principais matérias primas dos agrocombustíveis produzidos no Brasil.
Com o projeto “Avaliação dos impactos socioambientais da produção de agrocombustíveis em Mato Grosso (Cana-de-açúcar e Soja)”, o Formad verificou a situação da população que vive cercada pela monocultura da soja no médio norte mato-grossense, com foco nos municípios de Lucas do Rio Verde, e também os conflitos gerados pela monocultura da cana-de-açúcar na bacia do Alto Paraguai, especialmente nas comunidades do município de Barra do Bugres. Os resultados estão compilados no livro e na cartilha pedagógica “Dois Casos Sérios em Mato Grosso. A soja em Lucas do Rio Verde e a Cana-de-Açucar em Barra do Bugres”, coordenado pela FASE e assinado pelo consultor Sergio Schlesinger. Também estão no vídeo “Dois casos sérios sobre agrocombustíveis”, no qual agricultores familiares, ribeirinhos, pescadores, indígenas e populações tradicionais denunciam a perda da terra, da água, da qualidade de vida – e de direitos.
O celeiro do mundo não produz comida
O Mato Grosso, conhecido como “celeiro do mundo”, importa mais de 90% dos hortifrutigranjeiros de outros municípios como São Paulo e Curitiba, conforme informou o secretário municipal de Saúde de Lucas do Rio Verde, Marcio Pandolfi, em entrevista publicada no livro. O dado revela a contradição das cadeias longas de produção e consumo: para produzir as matérias-primas de combustíveis considerados mais limpos são queimados milhares de litros de outros combustíveis, especialmente o diesel dos caminhões, proveniente do petróleo, para transportar comida por cerca de 2 mil quilômetros.
No seminário de lançamento realizado em Sinop em 24 e 25 de junho, Sergio Schlesinger destacou que onde se produz 30% da soja brasileira, a agricultura familiar sofre sérias restrições. “Bons programas do governo federal como o de Aquisição de Alimentos (PAA) não se fazem presentes nesta região. No Brasil, a média é de 25% do território agricultável ocupado pela agricultura familiar. No Rio Grande do Sul chega a 34%. Mas no Mato Grosso a agricultura familiar ocupa apenas 10% das terras agriculturáveis”, comparou.
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Maria Emília Pacheco, da FASE, e atual presidente do Conselho Nacional de Soberania e Segurança Alimentar (Consea), perguntou se entre os presentes alguém acessava o PAA. Eram mais de 50 e apenas um levantou a mão, “indicativo de problemas”, nas palavras da conselheira. Ela explicou que o Consea é um lugar de propostas e monitoramento de políticas públicas na área da alimentação, um direito garantido na Constituição em seu artigo 6º.
Na opinião dela, para garantir comida de qualidade para todos e todas é preciso valorizar o autoconsumo, o modo de produzir das famílias e a agroecologia; garantir cadeias curtas de produção e consumo e descentralização do abastecimento das cidades, entre outros pontos.
Maria Emília alertou que o Brasil vive a séria contradição de ter feito diminuir a quantidade de pessoas com fome, mas correndo o risco de ver aumentar a assistência, já que o crescimento dos monocultivos está “cercando” os agricultores familiares, indígenas e povos tradicionais. Estes têm cada vez mais dificuldade de acessar seus territórios – o que inclui terra e água limpa e abundante, sem contaminação por agrotóxicos. O levantamento realizado pelo Formad ilustra a necessária preocupação com a água.
Em Barra do Bugres, área de expansão da cana-de-açucar em direção à Amazônia e dos rios da região da Bacia do Alto Paraguai, onde nascem os principais rios do Pantanal, a contaminação pela vinhaça e outros resíduos da produção do etanol se soma ao impressionante gasto de água: para atingir o montante esmagado na safra 2007/2008, por exemplo, foram gastos mais de 895 milhões de m³, o suficiente para abastecer por um ano 5,3 milhões de domicílios.
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O ‘modelo’ agronegócio se expande pela região
Na opinião de muitos no seminário, o problema é o governo beneficiar historicamente um modelo de agricultura – este do agronegócio. “A soja está se expandindo nessa região de Terra Nova e Alta Floresta [norte do Mato Grosso, fronteira com o Pará]. Este modelo é um ciclo. O gado está perdendo para a soja, se expandido para Santarém (PA). Esse modelo inviabiliza a agricultura familiar, todo o projeto de reforma agrária. No Mato Grosso tem muita terra pública utilizada pelo agronegócio”, afirmou Jefferson do Nascimento, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e do Fórum Teles Pires, sintetizando muitas falas.
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Por: Lívia Duarte
Fonte: Portal da FASE

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